20 de Outubro de 2019 | 06:00:08

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29/06/2012 | Cidade / Geral

Psiquiatra esclarece sobre reações humanas que levam ao homicídio/suicídio

Em Barretos, em 2011 foram 11 ocorrências e neste ano dois casos já foram registrados em curto espaço de tempo: maio e junho

Psiquiatra esclarece sobre reações humanas  que levam ao homicídio/suicídio

João Ricardo Terra
Edvaldo Santos

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Atualmente os índices de homicídio e suicídio vêm aumentando cada vez mais no país. Em 2011, o Estado de São Paulo foi um dos que mais registraram homicídios dolosos, seguido do Paraná e Acre. Em Barretos, em 2011 foram 11 ocorrências e neste ano dois casos já foram registrados em curto espaço de tempo: maio e junho. Nesta entrevista, o médico psiquiatra a psicoterapeuta João Ricardo Terra explica as causas prováveis que levam uma pessoa a cometer tais crimes:

O Diário: O que leva uma pessoa a cometer homicídio ou suicídio?
Dr. João Terra:Talvez não haja uma resposta simples e única para a sua pergunta. O que se sabe, porém, é que não é possível associar todo suicídio ou todo homicídio necessariamente à ocorrência de transtornos mentais específicos, muito embora essa abordagem seja, às vezes, bastante tentadora. Há pessoas que cometem esses atos sem sofrer transtorno algum. Quer dizer, uma pessoa que cometa suicídio ou homicídio não necessariamente tem de apresentar um transtorno psiquiátrico, há uma infinidade de outros fatores em questão. Obviamente, algumas situações clínicas são bem marcadas com tentativas de suicídio recorrentes, conforme a conhecida ênfase dada pela mídia aos transtornos do humor. Mas outros problemas, e aqui eu gostaria de destacar também alguns transtornos da personalidade e alguns transtornos psicóticos, se manifestam com essas tentativas. A “depressão” que aparece nos programas de televisão não explica tudo. E também deve ficar bem claro que uma pessoa que venha a praticar algum desses atos, sobretudo contra terceiros, é, sim, responsável pelo que está fazendo, salvo raras exceções. É um mito acreditar que todos que atentam contra a própria vida ou contra a vida dos outros padeçam de algum transtorno, e isso precisa ser discutido com bastante critério para não reforçarmos concepções equivocadas.

O Diário: Quem está propenso a ter essa reação?
Dr. João Terra: Considerando sua pergunta de uma maneira genérica, ações ou reações violentas não costumam ser exclusivas de nenhum transtorno mental específico. A violência está aí presente na vida de todos nós, sem distinção de classe social, sexo, etc., e algumas vezes ela é vital, inclusive. Mas, voltando ao assunto, normalmente nossa atitude diante da violência é acreditar que estamos imunes ou protegidos dela, que essas manifestações só aparecem nos noticiários, envolvendo outras pessoas, até que ela nos atinja. Mas também aqui é preciso ter cuidado. Por exemplo, se eu furo uma fila de supermercado, se eu estaciono numa vaga reservada para pessoas idosas, se eu cometo imprudências gratuitas no trânsito, pondo a segurança de outras pessoas em risco, eu também estou violentando o espaço alheio, quem sabe até a integridade de outras pessoas e os preceitos éticos de convivência. O próprio desrespeito, em sentido amplo, já é uma violência. Percebe então como fica mais próximo de nós entender a violência dessa forma? Com isso eu lhe devolvo a pergunta: todos nós não estamos predispostos a cometer essas pequenas “violências” no dia a dia? Será que a violência que você menciona está tão distante de nós quanto pensamos, ou o problema será apenas estabelecer os diferentes graus que a violência pode assumir? Fica aí o convite para pensarmos juntos.

O Diário: Qual o percentual de pessoas que podem desencadear esse comportamento?
Dr. João Terra: É difícil saber ao certo, dada a grande quantidade de variáveis envolvidas, como já disse. Uma coisa é quantificar essas manifestações numa população ocidental e urbana, outra é quantificá-las numa população oriental e rural, por exemplo. Particularmente eu prefiro evitar as estatísticas prontas e analisar cada caso separadamente, em busca de suas causas mais profundas. Em meu entendimento, as causas para as nossas violências, seja em que nível você quiser nomear, se encontram inclusive nas deficiências de nossa reflexão sobre esses acontecimentos de uma maneira menos simplista; outro ponto importante é a banalização do outro. Existe uma forte tendência atual a se explicar tudo do ponto de vista estritamente médico, e mesmo sendo médico eu sou contra isso, acho que é preciso ir além, utilizando o conhecimento médico de maneira mais crítica e integrada à realidade de outras áreas do conhecimento. Para os problemas que você aponta (suicídio e homicídio), sem dúvida alguma alguns transtornos mentais poderão desencadear desfechos de uma maneira mais incisiva. Mas isso, eu repito, não explica todo o fenômeno em sua complexidade. Cada pessoa é única em seu modo de existir, de pensar e de agir, com suas fragilidades e suas vulnerabilidades. Enquadrar toda essa riqueza numa estatística uniformizadora pode não ser o melhor caminho para dar conta de toda a multiplicidade desses fenômenos, pelo menos em minha opinião.

O Diário: Qual a reação que a pessoa tem ao cometer isso? O arrependimento é previsto nesses casos?
Dr. João Terra: Depende de quem pratica a violência – e de quem a recebe. Normalmente, o arrependimento acontece em pessoas com um senso de ética um pouco mais depurado. Quer dizer, se alguém hesita diante de uma violência, normalmente não a pratica... Estranho, não? Em outras palavras, pessoas com um funcionamento não tão sofisticado muitas vezes agem por impulso, sem tempo de pensar nas conse- quências do que estão prestes a fazer, e por isso suas demonstrações de arrependimento, quando ocorrem, às vezes não nos convencem tanto. Mas volto a dizer, ainda assim elas são responsáveis por seus atos, civil e criminalmente. Somente em casos muito graves é que isso fica comprometido, e mesmo nesses casos a justiça tem mecanismos de proteger a sociedade do convívio com tais pessoas, e aí sim poderemos empregar o modelo médico da patologia com adequação. Quanto às reações podem-se mencionar desde total indiferença, até total indignação. A reação de cada um, obviamente, depende dos valores que cada pessoa já tem em si, previamente, ou que é capaz de desenvolver mediante determinadas circunstâncias. Diante de uma atitude violenta há aqueles que acham “normal” o que estão vendo, e aqueles que procuram mecanismos criativos para tentar mudar uma realidade que esteja sendo desfavorável. Lembro-me agora de uma expressão de Brecht, se não estou enganado: “nunca diga ‘isso é natural’”. Acho que se aplica bem à nossa conversa...

O Diário: Qualquer pessoa está sujeita e desenvolver esse tipo de atitude?
Dr. João Terra:Sim e não. Qualquer pessoa está livre para agir de acordo com suas escolhas, mas, nunca é demais repetir, deve estar ciente de que é responsável por seus atos. Se eu opto em determinado momento por agredir fisicamente os meus pares, não vou poder justificar tal opção por um problema médico ou psiquiátrico qualquer, seja ele qual for, salvo raras exceções. Agora, alguns tipos de funcionamento estão sim um pouco mais expostos ao risco de atitudes violentas, e deverão ser auxiliados a se conhecerem melhor, para prevenção de atos impensados e melhor aproveitamento de suas potencialidades, a depender de seu interesse e de sua motivação pessoal. Sobre o ponto do suicídio, por exemplo, talvez não haja uma única resposta para toda a complexidade do tema. Ele tem inegavelmente os seus aspectos médico-psiquiátricos, mas há um reducionismo ingênuo quando se encara tudo isso apenas desse ponto de vista. Os aspectos psiquiátricos dessas questões levantadas são extremamente importantes, mas esse não é somente um problema médico, com disfunção nesse ou naquele neurotransmissor, que dependa dessa ou daquela medicação: estamos diante de uma questão muito extensa e multifacetada, sobre a qual estão todos convidados a refletir, dando suas contribuições pessoais.

CRM SP 121.355
Bacharel em Filosofia, Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta / Associação Brasileira de Psiquiatria. Preceptor do Programa de Residência Médica em Psiquiatria do Hospital de Base / Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto- SP.