17 de Novembro de 2017 | 19:18:30

12/11/2017 | Especiais / Saúde e Bem Estar

Fonoaudióloga orienta sobre atuação com deficientes auditivos

Roberta Petroucic alerta que problemas na audição podem ser descobertos na maternidade

Fonoaudióloga orienta sobre atuação com deficientes auditivos

SAÚDE: Roberta Petroucic é fonoaudióloga no Centro de Reabilitação no município
Tininho Junior

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A fonoaudióloga Roberta Petroucic explicou como o profissional da área pode ajudar um deficiente auditivo. Segundo ela, os problemas com a audição podem ser diagnosticados desde os primeiros momentos de vida de uma pessoa. A fonoaudióloga também orientou como a comunicação pode ser feita com um deficiente auditivo. O assunto foi lembrado na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no último final de semana, com o tema: Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil.

O Diário: Qual a importância do trabalho do fonoaudiólogo para o deficiente auditivo?
Roberta Petroucic: A importância começa lá no nascimento do bebê, onde o fonoaudiólogo vai realizar o teste da orelhinha ainda na maternidade, que é um modo de saber se a criança tem algum problema auditivo que precisa ser investigado, ou se está tudo ok com a audição dela. Se a criança não passa no teste da orelhinha, ela vai para um exame diagnóstico para saber se tem algum problema de audição, algo que pode ser cuidado com medicação, ela vai fazer exames mais específicos.

Quando a criança tem uma perda auditiva ao nascimento, logo nos primeiros anos de vida, o impacto é muito grande, porque se não soubermos que esta criança tem uma perda auditiva, ela não vai adquirir linguagem. Infelizmente, ainda temos crianças que chegam para a fonoaudióloga com dois ou três anos com a queixa de que não fala, e quando vamos pedir o exame, constatamos que a criança tem uma perda auditiva que não foi identificada. Por exemplo, se bate uma porta e a criança assusta, mesmo a pessoa que tem uma perda auditiva severa, ela vai ouvir uma batida de porta. Mas, para ouvir e entender a fala, preciso de uma audição muito boa. Então, para a criança que vai adquirir a linguagem, ela precisa estar com a audição muito boa e temos que estar atentos a isso. Lógico que temos perdas auditivas que são durante um momento. Todos já tiveram uma dor de ouvido. Você trata desta dor e a audição volta ao normal. As crianças, por exemplo, que têm dor de ouvido com muita frequência, embora vão sarar da dor de ouvido, são crianças que temos que estar atentos à adquisição de fala e de linguagem. Às vezes, ela está ouvindo a fala dos outros, mas o ouvido está com secreção, seria como um rádio fora de sintonia.

O Diário: Quais abordagens para com o deficiente auditivo?
Roberta Petroucic: Existem várias abordagens em relação à deficiência auditiva. Se a criança tem a perda auditiva antes da aquisição de linguagem, temos que ver se é uma perda importante, pois ela pode ser leve, onde você vai colocar um aparelho auditivo e a criança vai ter condição de adquirir linguagem somente com apoio fonoaudiológico, com muita orientação. Mas temos as deficiências auditivas severas e profundas. Temos duas correntes de atendimento. Uma é o oralismo, onde vão ser enfocadas fala e linguagem, e o aproveitamento máximo da audição que a criança tem com o aparelho auditivo ou implante coclear, por exemplo. A outra abordagem é o bilinguismo, que eu particularmente acho muito interessante.

Você vai oferecer para a criança, uma língua de sinais para que ela tenha o desenvolvimento da linguagem interna. A linguagem não é só falar. Ao falar para uma criança: pegue o pedaço de bolo maior. Isto envolve conhecimento e conceito do que é maior. A linguagem traz o desenvolvimento do pensamento da criança, em paralelo. Se a criança não tem uma linguagem, ela terá um atraso. Oferecendo uma língua de sinais, a criança terá a língua de sinais para o desenvolvimento da linguagem, e a segunda língua dela será a língua portuguesa. A fonoaudióloga pode ajudar na aquisição da língua portuguesa como segunda língua. A escola, em paralelo a isso, estará trabalhando a língua portuguesa escrita.

E hoje, temos intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) para as crianças que têm deficiência auditiva na escola. É diferente de uma criança que já adquiriu linguagem, adolescente ou adulto, que já fala ou conversa, e aí tem a perda auditiva. O trabalho do fonoaudiólogo será manter esta linguagem falada, auxiliar na adaptação a um aparelho auditivo e ver se há indicação para um implante coclear. A adaptação a um aparelho é difícil, que demanda mais cuidado e orientação.

O Diário: Qual a orientação para podermos lidar e nos comunicar com um deficiente auditivo?
Roberta Petroucic: As pessoas fogem daquilo que não conhecem, então a primeira orientação é não fugir. É uma pessoa como outra qualquer. Se a pessoa usa a língua de sinais, mesmo que você não saiba a língua de sinais, você vai tentar se comunicar com expressão facial, você vai falar de frente, de maneira natural e não grite com um deficiente auditivo, porque não ajuda. Isto distorce as palavras. Não fale na orelha do deficiente auditivo, ele precisa de sua pista da expressão facial, do movimento de sua boca para conseguir compreender o que ele está dizendo.

Use frases simples com palavras familiares, sendo claro e direto. Use seu gestual natural, que o deficiente auditivo irá entender. Se ele sabe que você não usa Libras, ele vai tentar se comunicar da forma que tiver. Alguns surdos adultos não tiveram oportunidade de frequentar a escola, porque na época em que eles eram crianças, não era em todos os lugares que tinham escolas que ofereciam educação para crianças surdas, e não havia perspectiva de inclusão. Alguns surdos adultos hoje não usam a escrita porque não tiveram oportunidade. A tendência é que as pessoas com deficiência auditiva e surdez, cada vez mais vão desenvolver a escolaridade, porque a surdez não tem nada a ver com escolaridade.

É oferecer o mecanismo certo e adaptação certa que ela terá oportunidade de conhecimento e aprendizagem. Quando é um idoso, que ao longo do tempo foi tendo deficiência auditiva, é importante que você use palavras muito claras, porque ele perde discriminação. Ele ouve sua voz, mas não discrimina as letras das palavras. Para o idoso, se as pessoas evitam se comunicar com eles, isto pode levar até ao isolamento social, até uma depressão.