22 de Setembro de 2018 | 16:04:56

16/09/2018 | Especiais / Saúde e Bem Estar

Psicóloga alerta sobre campanha Setembro Amarelo e destaca prevenção

Interlocutora de programa de saúde mental diz que é preciso esclarecer sobre suicídio

Psicóloga alerta sobre campanha Setembro Amarelo e destaca prevenção

ATUAÇÃO: Sabrina de Almeida Rocha é psicóloga
Tininho Junior

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A psicóloga Sabrina de Almeida Rocha alerta sobre a importância da campanha Setembro Amarelo, que alerta sobre a prevenção ao suicídio. A interlocutora de saúde mental da secretaria de Saúde de Barretos afirma que há “conceitos equivocados” e defende que é preciso falar sobre o tema para evitar a ocorrência deste tipo de caso. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O Diário:  Qual a importância de alertar sobre suicídio numa campanha?
Sabrina: A importância do alerta para a questão do suicídio se deve ao fato deste tema ser tratado com estigma historicamente e, desta maneira, pouco se fala sobre o assunto, gerando conceitos equivocados de que se você falar sobre o suicídio aumenta a chance de ocorrência desse tipo de morte. Quando na verdade enquanto não falamos sobre o assunto ele segue só avançando, pois desta maneira, fechamos os espaços de escuta e acolhimento e não permitimos que as pessoas peçam ajuda ou falem sobre seu sofrimento e seus pensamentos, impedindo que façamos alguma coisa a tempo ou ainda pior, que se percam vidas que poderiam ter sido salvas. Outro dado que justifica esse olhar, certamente, são as estatísticas: quase 800 mil mortes por ano no mundo e 12 mil mortes no Brasil. É a segunda causa de mortes entre jovens (15 a 29 anos) no mundo. Não dá para fechar os olhos para esses números e seguir não falando no assunto.

O Diário: Qual faixa etária em que há maior incidência deste tipo de caso?
Sabrina: A faixa etária de maior incidência para o suicídio é entre 15 e 29 anos. No Brasil, essa é a quarta causa de morte dentro desta faixa populacional, sendo a terceira entre os homens e a oitava entre as mulheres.

O Diário:  Por que a prevalência é maior nesta faixa etária?
Sabrina: O aumento do suicídio nesta faixa etária é tão importante que alguns estudos apontam um número crescente de 40% nos últimos cinco anos. O jovem está mais suscetível por questões biológicas e também pelos desafios impostos nesta nova fase da vida: mudança do corpo, estabelecimento de uma nova identidade social, escolhas profissionais e afetivas, cobranças, solidão, falta de oportunidades, etc. É preciso olhar para a família e refletir que modelo nossos jovens estão tendo no enfrentamento de dificuldades. Me parece que esta geração de jovens que temos hoje lida muito pior com a frustração, adoece mais, se isola mais e portanto está mais vulnerável à depressão e à solidão.

O Diário: É possível identificar sinais que indiquem tendência para o suicídio?
Sabrina: Certamente há como identificar os sinais que indiquem a tendência ao suicídio, e é exatamente por isso que podemos dizer que há como prevenir, ou seja, na maioria das vezes a morte pode sim ser evitada. O suicídio é o processo final de sofrimento psíquico onde o sujeito não deseja acabar com a vida, mas, sim, acabar com a dor, o sofrimento e a impossibilidade de encontrar outra saída faz com que pense que acabar com sua vida seja a única solução. Quando dizemos que é preciso falar sobre o assunto, estamos na verdade incentivando a população para que converse sobre sua saúde mental e também estamos instrumentalizando as pessoas para que ofereçam uma escuta genuína e sem preconceito. Importante ressaltar que 90% das tentativas de suicídio ocorrem entre pessoas que já têm algum transtorno psiquiátrico e que o uso e abuso de substâncias aumenta esse risco em cerca de 30%. É preciso somar a isso fatores de risco chamados psicossociais como desemprego, abuso físico e/ou sexual, aposentadoria, perda afetiva ou luto, doenças físicas incapacitantes como elementos que potencializam o risco para o suicídio.

O Diário: Como se previne este tipo de caso?
Sabrina: A prevenção ocorre em vários níveis, à medida que eu combato o estigma às doenças mentais e ao sofrimento psíquico, que levo ao conhecimento das pessoas que é preciso parar de disseminar ideias como:“quem pensa mesmo em se matar não fala”, “ele só faz isso pra chamar a atenção”, “isso é falta de Deus ou falta de religião”, “falar sobre suicídio vai dar ideia para as pessoas se matarem mais”. Já estamos qualificando as pessoas a lidarem com o sofrimento das outras de uma maneira mais adequada. Fora isso é preciso deixar claro que apesar do suicídio ser multifatorial, quando existe a ideação ou mesmo o planejamento do ato, isso é uma urgência psiquiátrica e precisa de suporte técnico. A campanha é muito importante também no sentido de deixar isso bastante claro para que familiares ou a rede de apoio de algum paciente que se encontre neste processo busque ajuda médica psiquiátrica, mesmo que contra o desejo do paciente. Nestes casos o excesso pode poupar uma vida.

O Diário:  Qual o papel da família na prevenção?
Sabrina: A família tem um papel central no sentido de que ela é quem geralmente tem a possibilidade de perceber os primeiros sinais e sintomas. Estar atento às mudanças de comportamento, hábitos de vestimenta, hábitos alimentares, de sono e quaisquer outros sinais que o paciente possa dar de que sua vida não tem tido mais sentido, pode fazer toda diferença entre a vida e a morte. Quando se fala de adolescentes esse cuidado deve ser redobrado: não é possível imaginar famílias onde os adolescentes entrem e saiam de casa sem que seus pais o enxerguem, sem que se monitorem o conteúdo visto na internet e sem que se conversem sobre sua rotina ou conheçam suas amizades. Pais que não são atentos, geralmente são os que se assustam quando se deparam com filhos envolvidos em jogos ou rituais, cortando os pulsos ou ainda com uso ou abuso de substâncias.

O Diário: O serviço público de saúde dispõe de unidades para a prevenção?
Sabrina: A atenção à saúde mental começa na atenção básica. A secretaria municipal de Saúde tem se empenhado em capacitar toda rede de atenção básica através das unidades e equipes de saúde da família através do matriciamento onde uma equipe de apoio matricial de profissionais de saúde mental discute os casos de saúde mental no próprio território do paciente. Atualmente estamos com 10 equipes de matriciamento em todas as Estratégias de Saúde da Família. Também nos preocupamos em qualificar os serviços de urgência e emergência que são acionados sempre da ocorrência das tentativas de suicídio. Realizamos recentemente capacitação envolvendo SAMU e UPA, além da própria enfermaria de psiquiatria da Santa Casa onde o treinamento foi realizado. Temos dois equipamentos específicos de atenção à saúde mental em nossa rede - Ambulatório de Saúde Mental (avenida 17, nº 1.152, centro) e o CAPS III  (rua 14, nº 140). Estes serviços realizam atendimento multiprofissional a pacientes em sofrimento mental.

O Diário: Os casos de suicídio tem aumentado no Brasil e em Barretos?
Sabrina: A estatística mais recente é da Organização Mundial de Saúde de 2016 que mostra uma taxa mundial de 10,5 mortes a cada 100.000 habitantes no mundo, e no Brasil este índice é 9, 7 mortes por suicídio a cada 100.000 habitantes. O Brasil ocupa o oitavo lugar em número absoluto de suicídios por sua extensão continental, porém, no quadro de mortes por 100.000 habitantes não aparece entre as 20 piores colocações.
O número de suicídios no Brasil cresceu 12% entre 2011 e 2015, segundo o Ministério da Saúde. Esse aumento pode ser atribuído também ao fato das notificações das tentativas e mortes por suicídio terem se tornado obrigatórias no país em até 24 horas desde 2011. Dados do SEADE (Sistema Estadual de Análise de Dados ) de 2016 colocam a região de Barretos na terceira colocação em mortes por suicídio na faixa etária de 40 a 59 anos em todo Estado de São Paulo, com 10 mortes a cada 100.000 habitantes.Dados da Vigilância Sanitária da secretaria municipal de Saúde apontam que no período de 2011 a 2018 houve 261 tentativas de suicídio sendo que destas resultaram em 76 óbitos no mesmo período tendo o suicídio como causa determinante. Em 2018 até o momento registramos 52 tentativas de suicídio com seis óbitos.