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O Oscar sempre esteve aqui

O Diário - 6 de março de 2025

O Oscar sempre esteve aqui

André Luís L. Ribeiro, professor de Literatura e Redação, sócio-fundador do Curso Vozes Humanas, Redação & Repertório

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Em 1998 eu estava no segundo ano de minha graduação, na Unesp, dentro daquilo que seria parte inseparável do meu coração e da minha mente, o IBILCE. Naquele ano, Dora, vivida por Fernanda Montenegro, incialmente uma pessoa endurecida pela vida amarga, encontrava Josué, o garoto órfão, na Central do Brasil – estação que também dá nome à obra. 

O “road movie” dirigido por Walter Salles não ganhou o Oscar. Aquela Fernanda também não. Apesar disso, o olhar de Dora dispensava longos diálogos – fazia compreender que a viagem da vida, cuja ida endureceu o coração da ex-professora, estava agora na volta, percurso contrário, transformador. A música não me sai da cabeça.

Um ano depois eu estava trabalhando como professor monitor na antiga Seta, maior escola de São José do Rio Preto à época. O colégio recebeu o saudoso Ney Latorraca, que em palestra nos disse acreditar que A Vida é Bela, de Roberto Benigni, outro clássico, ganhara a estatueta por ter se submetido mais às regras estranhas da Academia.

Só que a viagem seguiu. Fernanda Torres não precisa ganhar o Oscar de melhor atriz para sentirmos Eunice Paiva e a tensão em que mergulhamos durante todo o segundo ato do filme. Mas ela foi a chave para que o conjunto da obra desse a um filme brasileiro a primeira estatueta – melhor filme estrangeiro, para Ainda estou aqui. Nas suas idas e vindas, a estrada revê seus caminhos, e duas Fernandas se encontram. Mais que isso, o Brasil se encontra com seu passado e ganha um Oscar ao representar o tipo de desespero real, relatado por Marcelo Rubens Paiva, daquilo que não pode voltar a acontecer. Parabéns, Brasil – assim como o cinema nacional, você reviu seus caminhos.