Crianças e likes: curtidas que custam caro
O Diário - 22 de agosto de 2025

Aparecido Cipriano, Policial Militar aposentado e Diretor de Escola
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Era para ser só mais um vídeo “fofo” na internet. Uma criança, ainda pequena, repetindo uma dancinha que viralizou, usando roupas que mais combinam com o guarda-roupa de um adulto do que com a infância. Risos, música alta, comentários divertidos. E, claro, milhares de “likes” — a moeda de troca mais valiosa para muitos hoje.
Mas, por trás da tela, existe algo que não aparece no feed: a inocência sendo negociada. É quando o palco virtual rouba a infância, e a criança aprende cedo demais a buscar aprovação em números, e não em abraços. É quando ela é empurrada para um cenário em que o “divertido” e o “apropriado” se confundem, e o certo e o errado começam a se embaralhar.
A linha entre realidade e virtual se apaga. As brincadeiras genuínas dão lugar a encenações. O sorriso que deveria ser espontâneo é ensaiado. E, enquanto as curtidas chegam, o tempo — esse que não volta — se esvai.
A exposição excessiva não é só uma questão de privacidade. É uma agressão silenciosa ao desenvolvimento emocional. Uma criança que cresce sob holofotes digitais corre o risco de acreditar que só vale a pena viver aquilo que pode ser postado. E, assim, o mundo real perde cor diante da tela iluminada.
O perigo está em não perceber que, por trás de cada “like”, pode haver também um olhar mal-intencionado, um julgamento injusto, ou a cobrança por ser sempre “perfeita”. É a cobrança que nenhuma criança deveria carregar.
Infância é para ser vivida no quintal, na escola, nas conversas de mesa de jantar. É para ser protegida, não exposta. Quando trocamos a segurança por curtidas, abrimos mão de algo que não se recupera: a pureza do olhar infantil. Curtidas passam. Traumas ficam. E, quando o mundo virtual apagar as luzes, o que restará? A resposta está na responsabilidade de quem, hoje, escolhe entre registrar um momento para guardar… ou para expor.