Uma preciosidade barretense – Histórias que constroem
Sandra Moreno - 24 de setembro de 2025
Uma preciosidade barretense – Histórias que constroem
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Deveras fiquei muito feliz! Estava procurando produtos confeccionados do meio ambiente ou material recuperado, para adicionar à exposição da FACISB, quando me lembrei da fábrica de balaio na avenida sete.
Já conhecia o local, pois por muitas vezes comprei as varetas de bambu para colocar nas bandeirolas da procissão de aniversário de 300 anos de Nossa Senhora Aparecida e para muitas missas na Festa do Divino, realizada pela nossa Catedral do Divino Espírito Santo.
Esperei alguns minutos para ser atendida. Um senhor simpático, sorridente, de cabelos brancos desceu alguns degraus para atender-me. Chegou a meu lado sempre sorrindo e perguntou:
— O que a senhora precisa, dona Rosa?
Admirada, respondi perguntando:
— O senhor me conhece?
— Sim, há muito tempo! Esposa do Dr. Sérgio e presidente da ABC...
— Mas, o senhor conheceu meu marido? E a ABC?
— Temos um amigo em comum, que também é membro da ABC — respondeu-me. — Parece-me que ele é o presidente da entidade, o Mussinha.
Falou-me de muitos assuntos, recordações de quando ele trabalhava no cine Centenário, trabalhava com Merenda no teatro e muitos outros barretenses ligados à cultura. Seu nome, senhor Diomedes Ferreira. Fiquei orgulhosa, no bom sentido da palavra, por ter muitos amigos da cultura em Barretos.
Despedi-me com o material que viera buscar e continuei refletindo: Que maravilha! Temos em Barretos muitas pessoas que vivem na obscuridade e tão cultas que fazem tanto para Barretos que nem mesmo os próprios barretenses conhecem o seu valor.
Resolvi então falar com o Marcelo e o Tatá, de “O Diário”, para fazermos uma matéria sobre o senhor Diomedes e sua “Fábrica de balaios e cestas”, que está a seguir:
A vida de Diomedes

ARTESÃO: Diomedes mantém a tradição como guardião dos entrelaços
Nasci em Barretos, na vila Pereira, no dia 2 de outubro de 1942. Sou filho de Antônio Ferreira Bernardino e Zenaide Messias de Miranda.
Comecei a trabalhar aqui na fábrica de cestos e balaios onde estamos há mais de 90 anos, cujo endereço é Avenida 7, número 945, entre 22x24, em uma fábrica onde as pessoas diziam que antigamente era uma lenhadora que começou a funcionar, acredito que, em 1929. Eu entrei aqui na idade de 9 anos, saía do Grupo Escolar Fausto Lex e vinha para trabalhar.
O frigorífico Anglo não tinha embalagem suficiente para despachar seus produtos, então nós fazíamos as embalagens de cesto de bambu. A fábrica ia fazendo os cestos e mandava para o frigorífico colocar os produtos como a mortadela, charque para mandar para o norte. Era tudo dentro de cesto.
Então, quando eles pediam, eram muitos cestos e para produzir era necessário ficar agachado no chão. Assim era só criança que trabalhava nessa posição. Então eu fui ficando aqui. Ia para o grupo, saía do grupo, almoçava e tinha a tarefinha da escola para fazer, em seguida vinha para cá. Fazia 100 fundinhos de cestos e ia embora para casa.
O maior incentivo no início veio do frigorífico, pois eles pediam muitas encomendas de cesto, pois naquela época não tinha muito maquinário, eram poucos que existiam, por exemplo — para colher milho, tinha que ser no balaio, para colher laranja tinha que ser no balaio. Até hoje as panificadoras usam balaios para colocar o pão.
Um rapaz de Guaíra vinha aqui buscar a encomenda, toda semana, de 120 balaios. Antigamente o transporte que vinha buscar os balaios era uma perua.
Desafio, não enfrentei muito não. Desafio para mim é relativo, trabalhava normalmente e não me sentia desafiado. No começo foi meio difícil, porque antigamente eram os donos aqui que tocavam, né?
Plantavam bambu, para pôr as bexigas do boi para fazer a mortadela. Então tinha que buscar longe o bambu. Então saía daqui 2 horas da tarde e voltava às 2 horas da manhã. Era pedido do frigorífico e eles tinham pressa. Então íamos em umas 10 pessoas e vinha tudo em cima do caminhão. Hoje está mais difícil por falta de bambu.
Ainda continuo trabalhando, por enquanto, até na hora que não achar mais bambu. Só assim eu vou parar. A produção nunca diminui, agora só trabalhamos em 3 pessoas, antigamente eram de 20 a 30 pessoas que trabalhavam.
Hoje em dia as coisas foram modernizando, surgiu muita tecnologia e aqui até hoje, é tudo manual. Isso é uma espécie de artesanato, mas antigamente era serviço mesmo.
As vendas estão meio fracas, mas a gente vende todos os dias algumas peças. Não estou pensando em parar, nem pensando em crise, pensando em nada. Um pouquinho que vendo, mais a minha aposentadoria, completam o gasto do mês, e assim vamos tocando.
Meus balaios e cestos são produtos naturais que são utilizados na comunidade. Sempre pego encomendas de diversos tipos de cestos. Atualmente estou fazendo dois pedidos, um de cestinhas para um rapaz que me pediu 8 unidades e o outro pedido é de cestos maiores para pôr panelas. Vendo muitas encomendas para Planura e outras cidades vizinhas, fiz também um punhado de cestinhos para o Rio das Pedras.
Tenho uma boa relação com os meus clientes, pois quando trabalhei como funcionário do Cinema Centenário da avenida 21, aprendi muito sobre relacionamento. Fui aprendendo com os frequentadores do cinema dos poucos bairros que tinham naquela época.
Adorava trabalhar durante o dia aqui, e à noite no cinema. Não era apenas trabalho, era diversão. Porque você saía de um trabalho e já tinha um compromisso para ir que era o cinema.
E eu antigamente, quando tinha o cinema que passava aquele filme do tal de Charles Bronson. As pessoas olhavam em mim e falavam: olha ele parece com o ator do filme, Charles Bronson, e eu ria pois não acredito ser parecido com ele. Todo mundo na feira do Bom Jesus passava por mim e me chamava de Charles Bronson.
Eu acho essa entrevista muito importante, porque tem muitas pessoas que não conhecem a gente. Eu era muito conhecido no cinema, todo mundo me via lá todos os dias. Até quando eu tinha férias eu continuava trabalhando, enquanto os outros tiravam férias.
Fui muito bem-casado, minha esposa faleceu no dia 15 de novembro de 1991 logo após o fechamento do Cinema Centenário que foi em 4 de julho do mesmo ano. Tenho 4 filhos, o mais velho é o Fabiano da Silva Ferreira, o segundo Marcos Roberto da Silva Ferreira, a terceira Ana Paula da Silva Ferreira e o último que se chama Rafael da Silva Ferreira.
Meu conselho é: primeira coisa que tem que fazer é estudar. Fazer uma faculdade, se tiver condições, para depois arrumar um serviço compatível a ele. E se você pensa em fazer uma faculdade de advocacia, está tudo bem! Hoje todo mundo precisa de um advogado, por exemplo: se você for entrar no Fórum, precisa de estar acompanhado de um advogado. Então você tem que estudar. Fazer qualquer cursinho e seguir em frente, porque senão vai ficar como o povo de antigamente que não tinha estudo.
Assim, sigo minha vida... Vivo bem sempre trabalhando. Minha vida é aqui na fábrica.



