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O sim e a Obediência

Diocese de Barretos - 26 de dezembro de 2025

O sim e a Obediência

Por Dom Milton Kenan Júnior, Bispo de Barretos

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No domingo passado, 4º do Advento, a liturgia nos colocou diante de dois “sins” que não fazem barulho, mas que movem o universo: o sim de Maria e a obediência discreta de São José. Ao termos celebrado o Natal, quando o mundo corre atrás de luzes, compras e certezas, Deus escolhe entrar na história por caminhos simples: um coração disponível e uma fidelidade silenciosa. É assim que o impossível encontra endereço. Maria ensina o verbo acolher. Seu “sim” não nasce de garantias, explicações completas ou controle da situação. Ao contrário: nasce da escuta e da confiança. Quando Maria responde ao anúncio do anjo, ela não compreende tudo, mas entrega tudo. Deus não lhe oferece um roteiro detalhado do futuro; oferece-lhe uma promessa. E Maria acolhe. Seu “faça-se” não ecoa como grito, mas como decisão interior profunda. É um sim dócil, que não faz barulho, mas gera vida. Quando Maria disse “sim”, o impossível encontrou endereço. O Verbo encontrou morada. O eterno entrou no tempo. E hoje? Encontra? Já São José nos ensina o verbo cuidar. Seu sim não é pronunciado em palavras, mas vivido em atitudes. A obediência de José é silenciosa, concreta, cotidiana. Ele não ocupa o centro da cena, mas garante que a cena aconteça. Cuida de Maria, protege o Menino, reorganiza sua vida, muda planos, aceita o risco e a incompreensão. José não tenta controlar o mistério; ele o serve. Seu silêncio não é ausência, é fidelidade madura. Ele nos mostra que cuidar é uma forma altíssima de amar e que a obediência verdadeira não busca aplausos, apenas permanece. Diante de Maria que acolhe e de José que cuida, a liturgia nos provocou com um terceiro verbo: preparar a casa. Nosso “sim” hoje é chamado a ser espaço para Deus agir. Preparar a casa não é organizar perfeições, mas abrir portas. Deus não pede controle, pede coração disponível. Não pede garantias, pede confiança. O Advento nos questiona profundamente: nossa vida é hoje endereço para o impossível de Deus? Ou estamos tão cheios de ruídos, medos e resistências que não sobra espaço para Ele habitar? Cada vez que alguém diz “sim” a Deus, algo novo nasce no mundo. Talvez não com sinais espetaculares, mas com transformações reais. Um “sim” dado na fé pode mudar histórias, curar relações, reacender esperanças. O “sim” dócil não faz barulho, mas move o universo porque alinha o humano ao divino. Que nas ceias que hoje celebraremos entendamos que Maria nos convida a acolher sem exigir provas. José nos ensina a cuidar sem precisar ser visto. E Deus nos pergunta, com ternura e urgência: posso fazer morada em você? O impossível continua à procura de endereço. Que encontre em nós uma casa preparada.