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Um encontro com a dor, a fé e a esperança

O Diário - 13 de janeiro de 2026

Um encontro com a dor, a fé e a esperança

Um Encontro com a Dor, a Fé e a Esperança

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No café da manhã, eu conversava com João e Elô.

Uma conversa fluida, profunda, interessante — e que, sem que soubéssemos, se tornaria muito importante.

Depois de dias de férias de fim de ano do João, passados nas praias de Florianópolis com a família, estávamos alinhando projetos para o novo ano quando Elô recebeu uma mensagem no celular. Era de sua amiga e coordenadora do colégio, Silvana.

A notícia era dura: o falecimento de uma jovem mãe da comunidade escolar.

Mãe de uma criança de apenas 8 anos.

Elô me perguntou:

— Você conhece a mãe dele?  

Com mais informações, a Elô me lembrou que se tratava da Andressa filha de um amigo muito querido. Um homem que, em 1988, participou da fundação da nossa casa e ajudou meu pai na construção da Igreja de Santana e do Mosteiro das Irmãs de Clausura, na Cidade de Maria.

Antonio Maria das Lajes.

Sua filha havia falecido subitamente, vítima de um infarto da aorta abdominal.

Pouco tempo depois, o telefone tocou. Meu amigo Zé Eberle ligava para dizer que o cardiologista Eduardo Badra, também amigo da família, pedia uma orientação da Elô — psicóloga e diretora da escola onde o pequeno Christofer estuda — sobre como conversar com ele a respeito da morte da mãe.

Um detalhe que corta a alma: foi a própria criança quem encontrou a mãe desfalecida no banheiro e ligou para os avós.

Christopher vinha sendo criado com muito amor pela mãe, com o apoio constante dos avós e dos familiares próximos.

Lembrei-me do dia em que fui apresentado a ele, na Catedral do Divino Espírito Santo, durante uma missa que tive a alegria de participar ao lado do meu pai. Sentamos próximos ao Antonio Maria e à sua esposa. O avô, com grande orgulho, contou que o neto já era coroinha e adorava participar e ajudar nas celebrações.

Era uma criança com uma vivência espiritual que já o tocava de forma especial.

Ao recordar sua breve história de vida, fiquei profundamente sensibilizado. E, no fundo da alma, comecei a me questionar:

Meu Deus, por que uma criança Tua sofre perdas tão cedo?

Por quê?

Como será sua vida agora?

Como lidará com essa dor pelo resto da existência?

Como superará um trauma assim?

O Senhor vai intervir por ele?

Vai cuidar dele?

Não permitirá que se perca?

Vai fortalecer sua bondade e sua abertura ao sagrado,

ou a dor profunda fechará seu coração e seus sentimentos?

No final da tarde, fui com Elô ao velório para abraçar a família querida — e o pequeno Christopher.

Fiquei muito emocionado.

Disse a ele que o admirava muito. Que queria ser seu amigo. Que ele podia contar com minhas orações e com meu apoio.

No caminho de volta para casa, com o coração inquieto, eu ainda me perguntava o que seria do futuro daquela criança.

Então, recebi uma resposta — clara, firme e cheia de esperança: “Neto, você se lembra do que Deus fez com a sua mãe?”

Minha mãe perdeu a mãe aos seis anos de idade.

Tinha mais três irmãos homens, sendo um mais novo do que ela.

Era filha do segundo casamento do meu avô, que teve outros nove filhos.

Ainda menina, cozinhava para os irmãos antes de ir morar com tios — sobrinhos do meu avô — em outra cidade, aos nove anos.

Dois anos depois, perdeu também o pai.

Quem conheceu minha mãe sabe de sua doçura, de sua bondade e de sua força silenciosa.

Poucos conheciam uma história tão dura, tão desafiadora.

E então veio a resposta definitiva às minhas perguntas a Deus, com veemência e consolação:

“Se Eu fiz isso pela sua mãe, farei também pelo Christopher. Confie. O que aos olhos humanos parece impossível, para Mim é possível.”

João Monteiro de Barros Neto