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Crônica para Tereza – a fiel escudeira

O Diário - 26 de janeiro de 2026

Crônica para Tereza – a fiel escudeira

João Nataniel de Souza Vieira

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O que dizer sobre a Tereza?
Sempre achei que certas pessoas vêm ao mundo com uma missão discreta, daquelas que não aparecem nos jornais nem nos discursos oficiais, mas que transformam a vida de quem passa por elas. A Tereza era uma dessas raridades. Tinha a minha idade, mas me tratava como se fosse minha mãe; era irmã quando eu precisava de acolhida; amiga quando o peso apertava; protetora nas horas difíceis. E, como dizia o amigo Cipriano, era mesmo minha fiel escudeira.

Eu era o presidente dos clubes do frigorífico, mas todos sabiam que quem fazia as coisas acontecerem na prática era ela. Eu inventava moda e como inventava! Ela dizia, e lá vinha a Tereza, com aquele sorrisão, dizendo que ia reclamar, mas iria fazer porque parecia bom. E no final, estava ela mesma encantada com o resultado, feliz porque sabia que tudo era para alegrar aquele mundão de gente que dependia do clube para viver momentos de festa e união.

E foram tantas festas. Tantas gincanas. Tantas arrumações. Dez anos de invenções e reinvenções, e eu e Tereza seguindo juntos, colocando ordem, ajeitando as coisas, deixando tudo funcional. Ela, incansável, sempre a primeira a chegar e a última a ir embora. A Tereza era “mãos na massa”. Era força e ternura na mesma pessoa.

Nunca vou esquecer da minha chegada no frigorífico, na época Anglo e agora JBS. Dias depois, assumi a presidência do clube dos funcionários. Me entregaram uma lista interminável de tarefas para o 1º de maio. Na primeira linha, quase desmaiei: convidar as famílias. Perguntei inocente: “Só os cônjuges, né?”

“Não… a família inteira.”
Dez mil pessoas. Quinze mil lanches. Cinquenta itens na lista.
Eu suando frio, e ela, calma, firme:
O senhor não preocupa, não… eu arrumo gente. “Nós dá conta fiiii.”


E logo virei o “meu fiii”… tratado com o carinho de mãe e a parceria de amiga. Mais tarde, lá estava ela de volta, trazendo um batalhão de voluntários que nos ajudaram incansavelmente. Aliás, nessas atividades, sempre fomos voluntários e muito felizes por isso.

Prefiro não citar nomes, para não correr o risco de deixar alguém de fora, mas cada um deles sabe bem a diferença que fez.

Foi assim por tantos anos: escolinha de futebol, o futebol varzeano, gincanas para crianças e adultos, corrida de rua, bailes, princesa do frigorífico, candidatas para a rainha da Festa do Peão, ação social, pescaria nas lagoas do frigorífico, o futebol dos maricas e marmanjos, torneio de vôlei misto, homens e mulheres no mesmo time…


Tudo tinha a marca da Tereza.
Tudo tinha o jeito dela de servir com alegria, com devoção, com fé.

E não era só no clube. A Tereza participava da igreja, do Armour, trabalhava no RH, ajudava no que aparecesse. Ela se multiplicava. Valentim e Igor que expliquem como dava conta. Eu, até hoje, não sei.

Mas sei de uma coisa:
Deus recebeu uma das melhores pessoas que Ele poderia ter chamado.


Uma servidora de verdade. Uma alma que acreditava na força do bem. Uma mulher que seguia, sem esforço, o ensinamento que Madre Teresa de Calcutá repetia: não me chamem para lutar contra a guerra; me chamem para lutar a favor da paz.

A Tereza era isso: paz em forma de gente.
Generosidade em movimento.
Bondade que não precisava anunciar.

Lembro das conversas sobre a Companhia de Reis. Ela falava das visitas com brilho nos olhos. Era religiosidade vivida, verdadeira, dessa que aquece.


Ficou gravado também o dia em que eu e Erci fomos visitar a casa dela quando nasceu o Igor. Felicidade pura. Um abraço que ainda hoje mora na memória.

E lá no frigorífico na nossa sala de trabalho, onde funcionava o Departamento de RH?


Ah, lá eu gritava “Tereza!” o dia inteiro. O pessoal do nosso RH dizia que eu não sabia viver sem ela. E era quase verdade. Ela vinha sempre sorrindo, sempre pronta. Sabia do que eu precisava antes mesmo de eu terminar a frase. Era parceria. Era afeto. Era confiança.

Quando o amigo Cipriano me contou que ela tinha ido morar com Deus, disse uma frase que ecoa até agora:


“A parte ruim de envelhecermos é ver nossas pessoas queridas indo embora, deixando um vazio enorme no peito.” 


E é isso. Sinto esse vazio. Mas sinto também gratidão.
Porque tristeza não combinava com a Tereza  e nem combina agora.

Gente do céu… Foram tantos amigos queridos que me ligaram e me mandaram mensagem aqui em São Paulo para contar que a nossa Tereza tinha finalmente descansado. E é verdade… ela vinha sofrendo, e agora encontrou repouso.


Mas como é bom, bom demais da conta, viver cercado de amigos que parecem anjos de plantão. Pessoas que sabem chegar na hora certa, com a palavra certa, com o abraço que sustenta.

Eu sempre pensei assim:
os amigos são como anjos de uma única asa e para voarem, precisam estar abraçados uns aos outros.


E a Tereza, ah… a Tereza era dessas que fazia a gente voar mais alto, mesmo nos dias em que nossas asas pareciam curtas demais para qualquer céu.

Ela foi feliz.
Fez muita gente feliz.
Serviu. Amou. Fez diferença.

E deixa, para mim, para você, para todos que conviveram com ela, um legado bonito demais: o de que viver vale a pena quando se vive para o outro.

Descanse em paz, minha amiga-irmãzinha.
Obrigada por tanto.
O céu ganhou uma fiel escudeira… e eu fico aqui, com saudade, mas também com a certeza de que a Tereza cumpriu sua missão neste mundo com brilho, com fé e com amor.

João Nataniel de Souza Vieira