Sinestesia
O Diário - 30 de janeiro de 2026
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Figura semântica
A percepção de um “cheiro doce” ou de um “grito áspero” revela como a linguagem consegue transpor os limites biológicos para criar uma realidade imersiva. Ao cruzarmos domínios sensoriais distintos, como o olfato e o paladar, somos transportados de uma descrição puramente técnica para um campo de forças emocionais, no qual a palavra ganha texturas. Esse fenômeno semântico, a sinestesia, ordena a percepção do leitor ao materializar sensações complexas por meio de analogias que desafiam a lógica linear dos sentidos. Dois pilares sustentam essa dinâmica: a ampliação da experiência imersiva e a materialização da subjetividade.
A ampliação da experiência imersiva manifesta-se no cruzamento de domínios sensoriais diferentes para construir imagens mentais dotadas de força descritiva. Logo, a sinestesia vem à luz quando ocorre a união de impressões distintas, como em “o cheiro doce e verde do capim”, que associa olfato, paladar e visão. A ideia é criar um nexo lógico que facilita a plena imersão de quem lê. A análise desse processo revela que essa figura semântica funciona como uma ponte de sensações, retirando o texto do plano abstrato para inseri-lo em uma moldura cuja vivacidade é quase palpável.
A materialização da subjetividade encontra, na fusão de sentidos diversos, o veículo ideal para traduzir lembranças e afetos por meio de sensações físicas concretas. A eficácia dessa estratégia depende da seleção de termos que detêm a capacidade de imprimir movimento à memória, como na frase um “doce abraço”, que pode comunicar perdão, aconchego, entre outros sentimentos. Construções assim, permitem que se estabeleça um diálogo no qual a descrição de um gesto é convertida em um tocante testemunho psicológico sobre o estado de espírito do sujeito. Sinestesia é isto: deixar que o discurso ganhe cores audíveis.
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie




