O Brother
O Diário - 1 de fevereiro de 2026
Marco Antonio Teixeira Correa
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Brother, amigão, parça… essas palavrinhas carinhosas que usamos para aquele sujeito especial, bacana, está sempre por perto quando precisamos
Mas em Atrasil, país fictício (ainda bem), com o qual sonhei outro dia, brother é outra categoria: é quase um título de nobreza.
Os poderosos de lá têm seus brothers igualmente poderosos. Todos moram no Olimpo, um palácio suntuoso, em Atrasília, a capital — um lugar tão elevado que a gravidade da realidade não chega. Vestem capas, comem iguarias, bebem vinhos que custam o PIB de uma cidade pequena.
Aliás, lembro de uma licitação de anos atrás, quando o Olimpo resolveu abastecer a despensa. Nada de arroz e feijão: era lagosta, vinho premiado, e provavelmente um unicórnio assado se alguém tivesse colocado na lista. Tudo pago com o suor… dos outros, claro.
Para se locomover, os habitantes do Olimpo usam carrões com motoristas. Trabalham no palácio com restaurante, cafeteria, serviço médico e, se bobear, massagem com pedras vulcânicas. Têm salários altos, subsídios, posição vitalícia, contas que ninguém pode ver e imunidade que faria inveja a super-herói.
Se alguém ousa perguntar “ué, mas por quê?”, vira investigado. Se insistir, ganha até estadia gratuita atrás das grades.
Enquanto isso, políticos com mais de uma dezena de processos seguem tranquilos, tomando café com seus brothers. Décadas passam, nada anda. Mas se aparecer alguém que eles não gostam… aí a justiça vira atleta olímpica.
No Olimpo também existem os brothers dos brothers: parentes, agregados, amigos de infância, vizinhos do tio do cunhado. Esses ganham fortunas. Teve até um caso recente de alguém faturando 129 milhões de reais em suaves parcelas de 3 milhões por mês para “atuar no Olimpo”.
O caso envolve um banco chamado Plaster, tão podre e cheio de tentáculos que até os predadores e o Olimpo estão dormindo com a luz acesa. Entrou na parada o Prato Feito (PF) para investigar e esclarecer como o Plaster conseguiu enganar, trapacear, desviar e roubar tanto dinheiro.
Como seu chefe, super brother dos brothers e predadores de Atrasília, Sarapateu Vulcano em tão pouco tempo passou a ser amado por todos eles, essa pergunta está sem resposta.
E então surge o super brother, especialista em chilique. Cada ataque dele cria uma dificuldade nova para o Prato Feito (PF) investigar, apurar, prender. Hoje o PF é praticamente o único negócio funcionando em Atrasil. Ah, e a Banca do Centro (BC) também, vendendo seu peixe direitinho.
Apareceu até um brother novo, vindo de um Olimpo secundário, o Trânsito Congestionado (TC). Resolveu brigar com o Prato Feito, mas acabou falando sozinho. O PF é querido pelos habitantes de Atrasil — e ninguém mexe com o queridinho do povo impunemente.
O brother dos brothers, aquele silencioso, que dá chiliques, destruiu anos de trabalho em Atrasil. Investigações revelaram negócios misteriosos de um grupo de predadores; prenderam o chefão e vários outros. Mas aí chegou ele, o brother supremo, e foi apagando tudo com a calma de quem apaga um quadro-negro: libertou, inocentou, limpou a ficha dos poderosos.
Ah, e tem o brother da cabeça brilhante — literalmente, porque vive nos holofotes com sua cabeça reluzente. Também tem parentes faturando alto com poderosos. E se ele te pegar escrevendo algo com batom… pronto, cadeia. Sem poesia.
Ainda bem que Atrasil não existe. Foi só um pesadelo.
Brother é brother. Mas em Atrasil… brother é outra coisa.
Marco Antonio Teixeira Correa




