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Dilexi te – Um permanente desafio

Diocese de Barretos - 7 de fevereiro de 2026

Dilexi te – Um permanente desafio

Dilexi te – Um permanente desafio

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Por Pe. Matheus Flávio, Vigário Catedral, Barretos-SP.

O último capítulo do documento que lemos nos últimos sábados, aprofunda a convicção de que a atenção aos pobres não pertence apenas ao passado da Igreja, mas constitui um apelo contínuo e inadiável no presente. Logo no início, afirma-se que o cuidado com os pobres “é parte essencial do caminho ininterrupto da Igreja” (n. 103), enraizado na grande Tradição que brota do Evangelho. Reconhecer Cristo no rosto dos necessitados torna-se, assim, critério de fidelidade ao coração de Deus, pois “o amor aos pobres – seja qual for a forma dessa pobreza – é a garantia evangélica de uma Igreja fiel” (n. 103). O texto insiste que os pobres não podem ser vistos apenas como um problema social, mas como uma verdadeira “questão familiar” (n. 104). Eles pertencem à comunidade eclesial e exigem uma relação pessoal, marcada pela proximidade e pelo tempo partilhado. Por isso, a Conferência de Aparecida exorta a “dedicarmos tempo aos pobres, prestar a eles amável atenção, escutá-los com interesse” (n. 104), seguindo o próprio modo de agir de Jesus. A parábola do bom samaritano, retomada a partir da Fratelli tutti, ilumina fortemente essa reflexão. Diante do homem ferido à beira do caminho, surge a pergunta decisiva: “Com quem te identificas?” (n. 105). O Papa denuncia uma cultura que nos torna “analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis” (n. 105), habituando-nos a “olhar para o outro lado” (n. 105). O mandato evangélico permanece atual e exigente: “Vai e faz tu também o mesmo” (Lc 10,37). O capítulo recorda ainda o testemunho de São Gregório Magno, que advertia contra a indiferença e os preconceitos em relação aos pobres. Segundo ele, “todos os dias podemos encontrar Lázaro” (n. 108), e estes podem tornar-se nossos intercessores. Mais ainda, os pobres revelam-se verdadeiros evangelizadores, pois “colocam-nos diante da nossa fraqueza” (n. 109) e desmascaram o orgulho que nasce do bem-estar. A opção preferencial pelos pobres é apresentada como núcleo da fé cristã. Como ensinava São João Paulo II, ela “é decisivo e pertence à sua constante tradição” (n. 110). Os pobres não são uma categoria sociológica, mas “a própria carne de Cristo” (n. 110), exigindo uma resposta que una promoção humana e cuidado espiritual. Ignorar essa dimensão levaria a Igreja ao risco de se dissolver em “práticas religiosas” e “discursos vazios” (n. 113). Por fim, o texto valoriza a esmola como gesto concreto de amor. Apesar de frequentemente desprezada, ela continua sendo “um momento necessário de contato, encontro e identificação” (n. 115). Alimentada por gestos, e não apenas por ideias, a caridade torna visível o amor cristão, capaz de atravessar barreiras e tornar real, para cada pobre, a palavra de Jesus: “Eu te amei” (n. 121).