A acusação como espelho
O Diário - 5 de fevereiro de 2026
Por Aparecido Cipriano
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Quando a política revela o próprio rosto
Na política, há um velho truque que atravessa ideologias, mandatos e discursos: acusar o outro daquilo que se faz — ou se pretende fazer. Não é novidade, mas continua funcionando. Em vez de responder a fatos, cria-se uma narrativa. Em vez de assumir responsabilidades, transfere-se a culpa. A acusação vira método.
Esse mecanismo é conhecido na psicologia como projeção, ou seja, atribuir ao outro os próprios defeitos, erros ou intenções. No campo político, porém, ele ganha contornos mais graves. Serve para confundir a população, inverter papéis e produzir uma falsa sensação de moralidade. Quem acusa passa a posar de guardião da ética, mesmo quando seus atos caminham na direção oposta.
A filósofa Hannah Arendt já alertava que a mentira política não nasce do improviso, mas da repetição organizada. Quando se repete uma acusação muitas vezes, mesmo sem provas, ela passa a soar como verdade. Denuncia-se autoritarismo enquanto se tenta silenciar servidores. Aponta-se o dedo para a gestão alheia enquanto se foge de prestar contas. Qualquer semelhança com a política barretense “talvez seja” mera coincidência.
O problema maior não é a crítica — a crítica é saudável e necessária. O problema é quando ela vira cortina de fumaça. Quando serve apenas para desviar o foco, enfraquecer instituições e alimentar disputas pessoais travestidas de interesse público. Nesse cenário, quem perde é a cidade.
Precisamos de mais seriedade e menos teatro; de gestores que enfrentem problemas concretos e não de discursos inflamados que escondem a própria incoerência. Governar exige mais do que acusar; exige coerência entre palavra e prática, também pede união. Quando a política se resume a apontar defeitos no outro, muitas vezes, a acusação não revela o acusado — revela quem acusa.
Aparecido Cipriano




