A arte de transformar o metal em solução
O Diário - 8 de fevereiro de 2026
VOCAÇÃO: Amarildo transforma o metal em peças e ferramentas em Barretos
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Tornear superfície, usinagem interna, cilindro externo de placa universal, fazer furo de centro, facear, furar no torno, tornear superfície cônica externa e interna, recartilhar no forno, tornear entre pontas, abrir canal, abrir rosca com macho e Cossinete, abrir rosca triangular externa e interna, ler projeto de usinagem, eis o trabalho de nosso entrevistado do mês de fevereiro.
Visitei Amarildo para a entrevista especial para O Diário. Já o conhecia nos diversos anos de prestação de serviços à SR, que continua até hoje. Rapaz alegre, responsável e que conhece tornearia como ninguém. É exemplo de luta, competência e responsabilidade. Aos 58 anos, Amarildo Antônio do Carmo carrega no olhar a serenidade de quem construiu a própria história com trabalho, persistência e valores sólidos. Natural de Barretos, filho de Maria Aparecida do Carmo e Luiz Praxedes do Carmo (ambos já falecidos), ele cresceu ao lado de seis irmãos sendo o caçula entre os homens da família.
Casado com Gabriela Tamires Neves Cândido do Carmo, Amarildo é pai de quatro filhos — Franciele, Amanda, Laura e João — e tem na família o seu principal alicerce. Há quase 30 anos trabalhando por conta própria no ramo da tornearia, Amarildo se tornou referência em Barretos e região pela técnica, responsabilidade e prontidão no atendimento.
É com essa visão de mundo — que une família, fé e compromisso social — que compartilho a entrevista a seguir, revelando não apenas o profissional experiente, mas o ser humano que aprendeu, desde cedo, a não fugir dos desafios.
“Eu gosto de desafios”: a história de vida e trabalho do torneiro Amarildo
Rosa: Com o que você trabalha e qual o segmento da sua empresa?
Amarildo: Trabalho no ramo de tornearia. Presto serviço para toda a linha de manutenção de usinagem e solda.
Rosa: Você atende Barretos e a região?
Amarildo: Faço serviço praticamente para toda a região e também para outros estados.
Rosa: Faz tempo que você tem a oficina?
Amarildo: Trabalho por conta própria desde 1996. Então, já está fazendo 30 anos, né?
Rosa: Qual foi o maior incentivo para abrir seu próprio negócio?
Amarildo: O maior incentivo? Bem, eu gosto muito de inventar coisas. Se você trabalha em uma firma, tem que se dedicar a ela, sem tempo de fazer aquilo de que gosta, como eu: inventar. Então optei por trabalhar por conta própria.
Rosa: Você já fez algo além do serviço de tornearia?
Amarildo: Já ajudei meus irmãos na construção civil. Trabalhei de pedreiro.
Rosa: Quais as dificuldades que você encontrou, os desafios que enfrentou nesse negócio?
Amarildo: Praticamente não tive muitos desafios não, porque o segredo é trabalhar com qualidade e prontidão na entrega para os clientes.
Rosa: Você teve algum empecilho no seu negócio? Você vem sempre lutando, crescendo dia a dia?
Amarildo: Hoje em dia, o que atrapalha se chama material humano. Não tem mais mão de obra responsável, e não sei o que vai ser da gente no futuro.
Rosa: Você já pensou em desistir?
Amarildo: Não. Meu mundo, depois da minha família, é minha empresa. É a ela que dedico e dediquei a maior parte da minha vida.
Rosa: O que fez o seu negócio se destacar?
Amarildo: É que eu não fujo de desafio. Tem muitas peças que outros colegas não fazem e já falam: “leva no Amarildo que ele faz; se ele não fizer, ninguém faz”. Eu gosto de desafios. Às vezes chega uma peça que parece não ter jeito, mas se eu sentir que tem uma brechinha, a gente tenta e dá certo.
Rosa: O seu negócio representa algum benefício para a comunidade?
Amarildo: Acredito que ajuda muito. A gente faz serviço para hospitais e também para o SAAE, que precisa bastante. Muitas vezes, fora de hora, chamam para soldar alguma coisa. Às vezes vou uma hora da manhã, porque senão não vai ter água para a população. No Ano Novo do ano passado, o primeiro serviço que fiz foi às cinco horas da madrugada, na Estação Pereira, soldando uma peça de inox. Sorte que eu durmo cedo, não tinha ido ao Réveillon.
Rosa: Qual é a sua relação com os clientes?
Amarildo: É excelente. Meus clientes são todos bons e também meus amigos.
Rosa: Você tem alguma história com algum cliente?
Amarildo: Deixa eu lembrar... tem várias histórias. Uma vez, um funcionário de um cliente chegou querendo que eu fizesse o eixo do motor de um tanquinho de lavar roupa. Perguntou quanto eu cobrava. Falei que, na época, uns 30 reais. Ele achou caro e começou a questionar: “E se o rolamento estiver ruim?”. Eu disse que então fazia por 15 reais. Depois perguntou da ventoinha, da correia, e achava tudo caro. Eu falei: “Então faz o seguinte, eu faço tudo de graça”. Mesmo assim, ele disse que ainda estava caro. Deixei ele falando sozinho.
Rosa: Quais são seus planos para o futuro?
Amarildo: Tenho dois filhos formados e um deles está fazendo mais uma faculdade. O plano é continuar trabalhando enquanto Deus der saúde. Se um dia eu ficar super-rico, talvez não tenha mais oficina, mas vou colocar um torno dentro da minha casa. Eu nasci em cima de um torno e vou continuar trabalhando. A gente viaja duas vezes por ano para o Nordeste ou para o Sul. Há um tempo, operei da vesícula e quase fiquei por lá. Preciso elogiar a Santa Casa e toda a equipe, pois fui muito bem atendido. A saúde em Barretos está muito bem cuidada. Se eu tiver outro “piripaque”, preciso estar mais prevenido.
Rosa: Que conselho você daria a quem está começando no seu ramo?
Amarildo: Se a pessoa realmente gostar do que faz, já vai ter sucesso automaticamente. Tem que ter seriedade e um bom nome para conquistar credibilidade. Às vezes você não tem dinheiro na hora, mas precisa ter crédito, cumprir o prazo combinado com o cliente e acertar tudo direitinho. Não pode acumular dívidas, porque isso vira uma bola de neve.
Rosa: Qual frase representa sua trajetória?
Amarildo: A gente tem que acreditar que Deus ajuda no nosso negócio. Se Deus ajuda, temos que ajudar os mais necessitados e correr atrás também. Não menosprezar ninguém. Atendemos tanto uma empresa grande quanto um carroceiro que está sem eixo na carroça. Para mim é a mesma coisa. Sempre digo aos meus funcionários: caminhão que quebra na estrada tem um caminhoneiro dependendo da gente. Não dá para enrolar, tem que acudir depressa, porque ele precisa voltar a trabalhar e tem uma família esperando em casa.

*POR ROSA CARNEIRO




