Metonímia
O Diário - 14 de fevereiro de 2026
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Figura semântica
Quando se afirma que alguém “leu Machado de Assis” ou que uma família “busca um teto para morar”, compreende-se imediatamente o sentido pretendido, ainda que as palavras não nomeiem de modo literal o que se quer dizer. A metonímia, figura de linguagem fundada em relações lógicas de contiguidade, explica esse tipo de construção recorrente no uso da língua. Sob esse enfoque, destacam-se tanto a natureza objetiva das relações que sustentam a metonímia quanto sua função de síntese expressiva no discurso.
O primeiro ponto a considerar é que a metonímia se apoia em vínculos reais e identificáveis entre os termos, o que a diferencia nitidamente de figuras baseadas na semelhança. Exemplos consagrados como “Ouvi Mozart com emoção”, no qual o autor representa a obra, ou “bebeu um copo de caipirinha”, em que o continente substitui o conteúdo, ilustram substituições semânticas perfeitamente coerentes com a lógica da experiência. De fato, essa figura de sentido confere ao enunciado precisão vocabular e economia linguística, preservando a clareza.
Outro aspecto relevante da metonímia reside em sua capacidade de condensar significados complexos em formulações sintéticas e eficazes. Construções como “Todo homem tem direito à vida”, em que o singular designa a coletividade, ou “As câmeras procuravam todos os ângulos do trágico acidente”, frase na qual o instrumento representa as equipes de registro jornalístico, evidenciam a eficiência desse recurso eloquente da linguagem. Portanto, a metonímia, como figura semântica, funciona como um recorte preciso da realidade. Aliás, por vezes, entrega mais sentido em menos palavras.



