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Fraternidade e moradia

O Diário - 22 de fevereiro de 2026

Fraternidade e moradia

Dom Milton Kenan Júnior Bispo de Barretos

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Iniciamos na quarta-feira de cinzas o tempo quaresmal que vai nos conduzir à celebração do Mistério Pascal e, ao mesmo tempo, a abertura oficial da Campanha da Fraternidade 2026, cujo tema é “Moradia e Fraternidade” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14.

A cada ano, a Igreja do Brasil buscando dar à penitencia um sentido comunitário e ao mesmo tempo social – afinal de contas não somos seres isolados, mas membros de uma comunidade e de uma sociedade – nos propõe um tema ligado a alguma realidade social e comunitária que exige de nós uma atitude de conversão, inspirados pelo Evangelho.

Não há nenhuma oposição entre a Campanha da Fraternidade e a Quaresma. Se lermos os Padres da Igreja nos primeiros séculos da Igreja veremos que a pregação deles muitas vezes tratava da injustiça praticada contra os pobres, do dever da Igreja em atender e socorrer os necessitados, da ameaça que a avareza e do risco que a riqueza se tornar uma idolatria (cf. Cl 3,5). 

Vivemos num mundo de desalojados, pessoas e famílias em situação de rua, expostos a todo tipo de riscos e perigos por que lhes faltam condições para conseguir sua casa. Essa não é uma chaga de hoje! Já em 1993, a Campanha da Fraternidade tinha como lema: “Onde moras?”  Hoje, no Brasil nós temos 6 milhões de famílias que precisam de uma moradia; outras 26 milhões morando em situação inadequada e 300 mil pessoas vivendo em situação de rua.

Jesus viveu nestas condições. O lema da Campanha da Fraternidade nesse ano: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14) nos lembra que ao nascer, Jesus não encontrou um lugar na hospedaria e, na vida adulta, não teve onde reclinar a cabeça.

Quando falamos em moradia, falamos de família. A casa é o lugar da família. Não é apenas um espaço físico, mas é também lugar onde as pessoas se relacionam, aprendem a viver juntos. Um ambiente digno e saudável, seja do ponto de vista físico (moradia) como humano (convivência/relações) é fundamental para o desenvolvimento de pessoas e famílias saudáveis, e consequentemente garantia para a fraternidade e amizade social.

Aqui na cidade de Barretos a realidade da falta de moradia é uma realidade de longa data. Em 1962, o Padre Gabriel Correr sensibilizado com a situação de tantas famílias criou o “Centro de Investigação e Ação social” (CIAS) para atender famílias sem condições de conquistar sua casa própria, vivendo em condições muito precárias. Graças a esta iniciativa foram construídas 131 casas que atendem até hoje famílias que necessitam de uma moradia.  É verdade que a realidade vivida hoje é bem diferente de cinquenta ou sessenta anos atrás, se consideramos a construção de conjuntos habitacionais em nossas cidades, a possibilidade de famílias conquistarem sua casa própria através de financiamentos; mas, mesmo assim a falta de moradia continua a ser o drama de muitas famílias, que às vezes não têm condições para pagar o aluguel, ou pagar as parcelas do financiamento, e por isso são obrigadas a se submeter a condições degradantes.

Fraternidade e moradia também nos coloca diante da realidade da população em situação de rua. Como vimos são hoje no Brasil trezentas mil pessoas que perambulam de cidade em cidade, vítimas algumas vezes do tráfico e expostas ao crime. Em Barretos, a Fundação Padre Gabriel Correr mantém uma casa de passagem para oferecer a estas pessoas abrigo, alimentação, acompanhamento médico e odontológico. Um gesto de conversão seria visitar as instalações da Casa de Passagem “Padre Gabriel” que se situa no antigo Educandário São Benedito.

Nós apelamos ao poder público de nossa cidade, a quem a Constituição Brasileira determina a responsabilidade por atender esta população para que não deixe faltar à Fundação Padre Gabriel os repasses e o apoio indispensável para que ela possa continuar a realizar a sua missão. 

Inspirados pela Campanha da Fraternidade deste ano possamos oferecer a nossa ajuda aos que precisam de uma casa. O nosso querido e saudoso Papa Francisco dizia que toda pessoa tem o direito a teto, terra e trabalho. Que o fato de Jesus ter nascido em condições precárias, nas redondezas de Belém nos inspire a pensar nos que ainda hoje tem a mesma sorte dele, necessitando da nossa solidariedade.