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A Sagrada Escritura: Palavra de Deus com palavras humanas

Diocese de Barretos - 14 de março de 2026

A Sagrada Escritura: Palavra de Deus com palavras humanas

A Sagrada Escritura: Palavra de Deus com palavras humanas

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Por Pe. Matheus Flávio, Vigário Catedral, Barretos-SP.

Continuando a reflexão sobre a Constituição dogmática Dei Verbum, o Papa Leão destaca nessa catequese que esse documento ensina que a Sagrada Escritura, lida na Tradição viva da Igreja, é lugar privilegiado onde Deus continua a falar aos homens e mulheres de todos os tempos. Contudo, essa Palavra divina não nos foi transmitida em linguagem celestial ou inacessível. Deus, na sua condescendência amorosa, escolheu comunicar-se por meio de palavras humanas, para que pudesse ser compreendido e acolhido. O Concílio exprime esta verdade com grande beleza: “As palavras de Deus, expressas por línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens, tomando a carne da fraqueza humana” (DV 13). Assim como o Filho de Deus assumiu a nossa carne na Encarnação, também a Palavra divina assume a linguagem humana na Escritura. Há aqui uma profunda analogia entre a Encarnação do Verbo e a inspiração bíblica. Ao longo da história, refletiu-se muito sobre a relação entre Deus e os autores sagrados. Durante séculos, para defender a inspiração divina, alguns consideraram os hagiógrafos quase como instrumentos passivos. Contudo, a Dei Verbum esclarece que Deus é o autor principal da Escritura, mas os escritores sagrados são “verdadeiros autores” (DV 11). O Espírito Santo não anula as capacidades humanas; ao contrário, serve-se delas. Como observou um exegeta moderno, reduzir o autor humano a mero escrevente “não significa glorificar a operação divina”. Deus não mortifica o humano, mas eleva-o. Por isso, a Bíblia é verdadeiramente Palavra de Deus com palavras humanas. Ignorar qualquer uma dessas dimensões leva a interpretações parciais. Se se esquece a dimensão humana, corre-se o risco de leituras fundamentalistas, que desconsideram o contexto histórico e os gêneros literários. Se, ao contrário, se reduz a Escritura a simples produto humano, ela passa a ser vista apenas como documento do passado, esvaziando-se sua força viva e atual. O próprio Concílio ensina que a interpretação deve considerar “o que os hagiógrafos quiseram realmente afirmar” e ler os textos “sob a ação do mesmo Espírito que os inspirou” (DV 12). Especialmente na liturgia, a Escritura não é recordação distante, mas Palavra viva que interpela o presente, ilumina decisões e sustenta a fé. Santo Agostinho recorda um critério essencial: “Quem pensa ter compreendido as Escrituras divinas [...], se mediante esta compreensão não consegue levantar o edifício da dupla caridade, de Deus e do próximo, ainda não as entendeu”. A Palavra de Deus conduz sempre ao amor. Demos graças ao Senhor porque continua a falar-nos por meio da Escritura. Que a escuta atenta da sua Palavra, acolhida com fé e vivida na caridade, nos permita experimentar hoje a força renovadora do Evangelho e testemunhá-lo com autenticidade no mundo.