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Guerras em linhas

O Diário - 17 de março de 2026

Guerras em linhas

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Dias desses, vi minha filha e uma amiga diante de um mapa-múndi, intrigadas. A amiga tateava com o indicador os países Irã, Israel e Estados Unidos, ziguezagueando o mapa, em alto compasso, para explicar à minha filha sobre a tal guerra que está acontecendo no mundo. Enquanto Carolina explicava com palavras simples e até tentava prever o futuro, Cecília ficava boquiaberta, pensando: “e se isso estivesse acontecendo aqui?”. A gente pensa que não, mas guerra também é assunto de criança.

Pois bem, refleti sobre o quanto a guerra muda a vida das pessoas. Sobre o privilégio de ter nascido em uma geração e em um local em que a vida não precisou ser paralisada por conta de sons de canhões. Nós vemos de longe a guerra acontecer, mas jamais saberemos o quanto ela impacta a vida das pessoas e modula gerações. 

A História e a Literatura são duas importantes testemunhas sobre esses impactos de gerações das guerras. Fiquei a pensar sobre a quantidade de livros, especialmente de autores europeus, que elencam a guerra como cenário de suas obras. “O menino do dedo verde” de Maurice Druon, por exemplo, lido pelas meninas que abrem esta crônica, é um retrato do momento em que foi escrito: o pós 2ª Guerra e a Guerra Fria. Escrito para crianças, o livro na verdade é um recado de esperança e uma lição de humanidade para os adultos da era nuclear. 

“O Diário de Anne Frank” dispensa apresentações sobre como a violenta realidade da 2ª Guerra Mundial ceifou a vida de uma geração de jovens europeus. Sensação que pessoalmente tive quando li a obra “Os cantadores de conchas”, de Rosamunde Pilcher, em que o romance concentra seu clímax no período da mesma guerra e retrata as pessoas praticamente presas em mundos pequenos, sem perspectiva de quando tudo vai voltar ao normal e tentando ir ao cinema ou a um passeio em momentos que pareciam tréguas. É impressionante como a 2ª Guerra, com seus intensos seis anos, entrou na Literatura como uma ferida aberta, cujas cicatrizes até hoje não se apagaram. Ao contrário, revivem.

As guerras foram contadas em linhas para que a gente não se esqueça do quanto elas podem paralisar realidades e impedir sonhos. Que elas fiquem apenas lá, nas linhas.