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Eufemismo

O Diário - 22 de março de 2026

Eufemismo

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

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Figura semântica

Nem sempre a língua nomeia a realidade de maneira direta. Em muitos casos, ela prefere suavizar certas ideias para torná-las socialmente aceitáveis. Esse procedimento, conhecido como eufemismo, consiste em substituir uma expressão de sentido desagradável por outra mais branda, preservando a clareza sem produzir impacto excessivo no interlocutor. A compreensão desse recurso permite observar tanto o papel do eufemismo como mecanismo de atenuação de significado quanto a sua função de adequação discursiva nas relações sociais mediadas pela linguagem.

Do ponto de vista expressivo, o eufemismo atua como estratégia de suavização do significado, permitindo que conteúdos potencialmente duros sejam apresentados de forma menos agressiva. A gramática registra exemplos como “apropriar-se do dinheiro” em lugar de “roubar”, e “retirar-se da vida” em vez de “morrer”. Todas essas construções reduzem o efeito de choque provocado pelo termo direto. Aliás, o enunciador demonstra sensibilidade comunicativa sempre que escolhe conscientemente a expressão de menor impacto.

A escolha de como se diz faz surgir a função social do eufemismo, dimensão importante, ligada à polidez e ao cuidado nas interações sociais. Expressões como “doença ruim”, empregada para evitar a menção direta ao câncer, ou “pessoa de poucos recursos”, em substituição a designações mais duras de pobreza, evidenciam esse procedimento. Portanto, nessas situações, a linguagem funciona como um gesto de delicadeza, no qual se troca o peso das palavras por uma forma mais leve de dizer. De fato, comunica bem aquele que é capaz de medir o alcance emocional daquilo que expressa.

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie