Calçada da memória
O Diário - 26 de março de 2026
Marcelo Murta
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Um avô sentado na calçada observa a longa rua asfaltada. Traça a linha do tempo do bairro Vila Baroni. Corredor boiadeiro de Comitivas. Única esperança do desenvolvimento sustentável da então Capital da Pecuária. Ajeita seu velho chapéu e aperta o cigarro de palha para não perder a brasa. Calça botinas surradas de tantas memórias. Vestígios marcados no chão preto. Pegadas de histórias vividas. Asilo de loucos, campo do Fortaleza F.C e Recinto do Paulo. Paulo de Lima Correa. Santuário do Zebu. Odisseia da Índia ao Brasil. Primeiro navio de bovinos sagrados. Namastê. Época dos pioneiros do criatório nacional. Esbarrado na precisão, de volta ao passado, dirige na mente o filme da jornada caipira. Cenas de Desfile Folclórico na Av. 23. Fragrância de eucaliptos fazendo sombra a trempe acesa da cozinha regional. Tradição gastronômica que atravessa gerações. Início das montarias de pulos e tombos. O rodeio no mundo tem alma negra. Afrodescendentes foram os primeiros Cowboys. Escravos domadores de cavalos e burros chucros. A música de Beyoncé homenageia a primeira rainha negra das arenas. Dallas Barretos, conexão sertaneja country. King Ranch oásis de Quarto de Milha de trabalho. Despertar do Agro. Hoje êxodo urbano. Qualidade de vida e respeito ao meio ambiente. "Saudade da minha terra", toca no radinho de pilha do velho boiadeiro. Uma lágrima de saudade insiste em molhar seu rosto. Cenas românticas da sua companheira. Foto do casal empoeirada ao lado da cama. O grande amor que já se foi. Mãos calejadas de enxadas no campo. O entardecer pinta um sorriso solitário no rosto cansado. Não deixando esquecer que aqui os Brutos também amam. Abraços Cavalares.



