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Entre linhas, fé e balcão: a história de Vicente e Ziza no comércio

O Diário - 11 de abril de 2026

Entre linhas, fé e balcão: a história de Vicente e Ziza no comércio

CUMPLICIDADE: Vicente e Ziza compartilham suas histórias de vida

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Desde cedo, a vida ensinou a Vicente e Ziza Borges de Souza o valor do trabalho. Ele, filho de colonos e ex-bombeiro, moldado pela disciplina. Ela, costureira por vocação, guiada pelo cuidado. Juntos, transformaram essas experiências no Bubballoo Bazar, um espaço que ultrapassou o comércio e se tornou ponto de encontro e acolhimento em Barretos. Naturais de Campina Verde (MG), chegaram ao negócio após anos de trabalho e recomeços. Em 2002, uniram economias e experiência para assumir o bazar, modernizar o espaço e construir uma trajetória baseada no contato direto com os clientes. Após mais de duas décadas, projetam encerrar as atividades e iniciar uma nova fase, voltada à vida pessoal e ao voluntariado. É essa história de vida que a empresária, escritora e acadêmica Rosa Carneiro compartilha com os leitores, através de entrevista que realizou especialmente para O Diário.

Da rotina compartilhada ao trabalho conjunto e propósito no atendimento
ROSA: Em que ano foi comprado o Bazar Bubballoo e quais as dificuldades encontradas para a aquisição?

VICENTE: Foi no ano de 2002. Como me aposentei em 2000, fiquei dois anos para vender a fazenda de Goiás, que Ziza e eu herdamos de seus pais. Procuramos alguma coisa para fazer e quando achamos, pensamos em conciliar o trabalho de costura de Ziza que conhecia o segmento de armarinhos. Então, quando me aposentei do Corpo de Bombeiros, queria fazer alguma coisa e foi quando adquirimos o Bubballoo Bazar, que era um bazar de uma senhora com três filhas. As filhas já haviam se casado e ela estava praticamente sozinha tocando a loja com dificuldades. Foi quando colocou a loja à venda. Como eu havia me aposentado, vendi as propriedades lá em Goiás para vir para o comércio, então encontramos aqui esse bazar. A loja estava muito defasada, assim a ampliamos, modernizamos, depois que compramos o prédio próprio.

ROSA: Ziza, como você conciliou o trabalho na loja e os filhos? 

ZIZA: Quando compramos a loja, Gisele e Otavio já estavam na faculdade, portanto foi fácil.

ROSA: O senhor alguma vez pensou em desistir?

VICENTE: Não! Na verdade, sou muito otimista, muito corajoso. Hoje, é lógico, não tenho mais essa coragem, pois estou com 77 anos, a gente vai perdendo as forças e a capacidade de raciocínio também vai se limitando, mas eu nunca pensei em desistir. Trabalhamos muito até 2015 e eu já estava tentando sair para me aposentar de vez, mas até hoje eu não consegui vender a loja.

ROSA: O que você costurava. E o que você passou a fazer?

ZIZA: Costurava todos os tipos de roupas femininas. Parei com as costuras e dispensei as clientes. Eu passei a me dedicar somente à loja, ao aprendizado de lidar com os produtos, oferecer os produtos, pois era coisa que eu conhecia bem. E Vicente também conhecia os produtos, pois era um filho muito dedicado, ajudava a mãe dele nas costuras, então passou a me ajudar também.

ROSA: Foi isso que fez vocês se destacarem?

ZIZA: Investimos em tudo! Olhe lá em cima. Eu faço tudo por amor e gosto do que faço. É a razão do sucesso. Ainda mais tendo herança do meu pai e da minha mãe! Então zelamos, trabalhamos e fizemos crescer com muito amor.

ROSA: O negócio representa alguma coisa para a comunidade barretense? 

VICENTE: No meu ponto de vista, a minha intenção era crescermos de uma forma que acompanhasse a evolução da cidade, mas esbarramos no problema de espaço físico. Então a loja ficou pequena para que pudéssemos ampliar e colocar mais segmentos na área de tecido, material para aulas de crochê e tricô, e colocar também segmento de bordado. Colocamos cursos de bordado, costura, crochê e tricô aqui na loja. Tínhamos uma excelente professora, mas infelizmente, ela teve um problema de saúde, não teve sucesso no tratamento, veio a falecer. Então em respeito à Márcia, que era a professora, não quisemos colocar mais nenhuma pessoa para substituí-la. A gente ficou sem esses cursos por esta razão.

ROSA: Qual a relação de vocês com os clientes?

VICENTE: Eu acho que o sucesso de qualquer empresa, independente do segmento, é o corpo a corpo com o cliente. E isso fez o Bubballoo ficar mais conhecido. Nós não ficamos escondidos no escritório. Eu estava sempre presente lá na frente, cumprimentando quem chegava, conversando e relacionando. E tinha uma conversa amistosa, amigável, levando informações. Por isso acho que o corpo a corpo de um dono com o cliente é muito importante.

ZIZA: O sucesso da Bubballoo para mim foi a Graça de Nossa Senhora e a mão de Deus, porque dentro de quatro meses de oração, eu alcancei a graça, conseguimos comprar uma empresa que estava de acordo com que eu sabia fazer. Algo que pudesse servir a sociedade, servir com a nossa mão de obra. Então mergulhamos de cabeça na intenção de partilhar o conhecimento, partilhar informações, crescer no comércio, expandindo essa arte da costura, a arte do bordado, do artesanato. Nunca tive outra profissão a não ser essa e sempre gostei muito.

ROSA: Vicente, você tem alguma história para contar vivenciada com algum cliente?

VICENTE: Acho que as histórias mais positivas que podemos explanar aqui são com os clientes que vêm para a Fundação Pio XII, o nosso Hospital de Amor. Vários doentes vêm fazer tratamento e querem uma ocupação. E o que eles procuram para essa ocupação? Eles buscam material para fazer Terapia Ocupacional, e aqui eles encontram esses produtos. A história que nos marcou bastante foi daquela boliviana que infelizmente faleceu aqui, e nos envolvemos no caso porque estávamos dando suporte para família, sem falar de vários outros que envolvemos em nossa casa, pela pobreza e tão desamparados que vinham lá do Nordeste.

ROSA: Ziza, você tem algum fato positivo ou alguma “historinha”?

ZIZA: Muitos fatos positivos. O envolvimento que temos aqui com os clientes, os pacientes do Hospital que trazem o sofrimento, procuramos acolher, dar suporte, porque aqui nós não só vendemos, como também servimos de psicóloga, de conselheira, recebemos conselho, trocamos experiência de vida, trocamos receita de remédios, receita de comidas, e assim nos tornando com os clientes quase uma família. Eles chegam, querem conversar, contam suas dores, a saudade da família, os filhos que ficaram onde moram, tantos assuntos que acabamos nos envolvendo também.

ROSA: Você tem um bom relacionamento com as colaboradoras?

ZIZA: Maravilhoso! Nós sempre tivemos muita sorte com as nossas funcionárias. Porque começamos assim: com a intenção de dar o primeiro emprego. E realmente iniciamos com uma turminha de três meninas, de 18 anos, o primeiro emprego. Foi muito bom, muito bem-sucedido. Agora que eu estou com uma turminha mais experiente. E o nosso relacionamento, eu considero mãe e filha, porque quero muito bem a elas, procuro tratá-las assim, ajudá-las também, pois todas são mães, todas são donas de casa, então quando elas precisam sair para ir a uma reunião da escola, para ir levar uma criança ao médico, não tem problema, elas vão.

ROSA: O que significa para vocês esta entrevista?

VICENTE: Nós sempre trabalhamos juntos, fazemos o ir e vir de casa para cá, a pé, para termos uma desculpa de caminhada. Estamos aqui no bazar às 7 horas e às 7 horas da noite é que retornamos. Sempre fazemos nosso trabalho juntos. E receber uma entrevista dessa, eu acho que é um reconhecimento da cidade para com o nosso trabalho. O nosso trabalho sempre foi, como a Ziza mencionou, mais voltado para a sociedade para agradar, deixar os clientes sorrindo ao invés do objetivo de lucrar e tirar grandes fortunas daqui de dentro. Mas é uma ocupação, é uma terapia ocupacional para ela e para mim. Então, uma entrevista dessa, levada ao conhecimento da cidade, a população vai ter mais noção de quem é o Vicente e quem é a Ziza.

ROSA: Agora me diz, quais os atuais planos?

VICENTE: O plano é que provavelmente neste ano, a gente vendendo ou não, finalizamos as atividades no Bazar Bubballoo. O encerramento marcará o fim de um ciclo de 23 anos no comércio, assim como foram 23 anos no Corpo de Bombeiros e os primeiros 23 anos de minha vida. Nossa intenção para que o ano que vem, é que possamos nos ocupar de nós. Eu quero ter a liberdade de fazer as coisas para mim sem obrigação de horário, pois já cumprimos muito horário. Fazer caminhadas, tomar meu banho demorado, sem cobrança. Esse é nosso plano para o futuro. No ano que vem, queremos dar outra guinada na nossa vida.

ZIZA: Eu dei catequese lá no Bom Jesus por 8 anos, quando morava lá na 45, antes de termos o bazar. Parei com a catequese por causa do comércio. Pretendo voltar também a dar aula de corte e costura como voluntária. Tenho muita vontade de dar aula no Educandário. Então esse é meu projeto: Não parar, mas continuar prestando serviço para a comunidade e para Deus.

ROSA: Que conselho você daria para quem está começando?

VICENTE: Para a pessoa começar como empresário, ela tem que estar focado em um objetivo, que é ter um capital para iniciar e a partir daquele capital, tudo que ele for conseguindo de lucro, não gastar, não ramificar aquele lucro em outras áreas. Focar só naquele objetivo inicial. Colocar todo o investimento dentro da própria empresa para fazer com que a empresa cresça. Se você diversificar, não consegue nada. É como diz o provérbio “Se você correr atrás de dois coelhos, você acaba não pegando nenhum”. Então o objetivo é o foco, naquele seu objetivo.

ROSA: E você, Ziza, o que acha?

ZIZA: Em primeiro lugar, pedir a direção divina em tudo o que vai fazer. Entregar nas mãos de Deus e pedir-Lhe que se cumpra na nossa vida, segundo o nosso objetivo, o projeto Dele.

ROSA: Qual frase marca a sua trajetória?

VICENTE: Ter fé e esperança e acreditar na Divina Providência, como Ziza disse.

Rosa Carneiro