A cegueira suicida do mundo
O Diário - 28 de abril de 2026
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo
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A frase que serve de título para esta reflexão é de Bernardo Carvalho, no artigo “Ian McEwan confronta seu tempo” (Ilustríssima 22.2.26). Ele estava num voo quando um passageiro sofreu mal súbito e morreu a bordo. Impressionou-o a frieza de grande parte dos passageiros, que acionou seus celulares para gravar a agonia do semelhante que perdia a vida, como se fora um espetáculo a se exibir nas redes.
É um testemunho eloquente da enfermidade social que acomete nossa gente. Atenta ao seu próprio mundinho, enfeitiçada até à raiz pelo poder absoluto da internet, incapaz de sentir as angústias da Terra.
Sim, este planeta que ainda é o único disponível, também sofre as consequências da irracionalidade humana. Fora racional e o bicho-homem já teria banido o combustível fóssil e levado a sério a mais do que urgente transição energética. Teria ao menos restaurado os setenta milhões de hectares devastados pelo uso errático do solo e hoje desertificados, naquele país que já foi a “promissora potência verde” do final do século XX, antes de se converter em lastimável “Pária Ambiental”.
Uma sociedade civilizada não restaria inerte, quando milhões passam fome, enquanto outros milhões desperdiçam comida. O mundo se desfaz de um bilhão de toneladas de comida manipulada a cada dia. São Paulo, a maior cidade do Brasil e uma das maiores do planeta, produz a cada dia, quinze mil toneladas daquilo que chamávamos de lixo e hoje o mundo chama de “resíduo sólido”, exatamente porque tem valor. Nas partes civilizadas do planeta, isso gera uma considerável receita. Aqui, essas toneladas vão continuar a ocupar territórios ambientalmente protegíveis, áreas que deveriam se converter em jardins, bosques, parques, lagos, mas se transformam em horrendas montanhas de lixo, em camadas que produzem chorume, se infiltram nos lençóis freáticos e custam fortunas ao povo que as produz.
Se prestasse atenção a essas coisas, inclusive na gravíssima escassez hídrica que nos ameaça, a população talvez acordasse e não continuasse a vagar de forma equivocada e imbecil, em verdadeira cegueira suicida.




