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As lendas: janelas para o passado

O Diário - 28 de abril de 2026

As lendas: janelas para o passado

KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e titular da cadeira 7 da ABC / @profkarlaarmani

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Desde criança ouvimos histórias a respeito de anciãos, profetas, benzedeiras, padres, animais e outros personagens. Elas dão cor e voz às lendas que se costuram à história da cidade, dando mais vivacidade à sua trama. Assim, a fronteira entre a imaginação e a realidade é bastante turva, pouco definida, e cabe somente à História contornar as suas origens, sem desmistificá-las, contextualizando-as. 

Quanto mais se volta no tempo, mais interessantes são as lendas. Em especial, os lugares e os cenários por onde passam suas narrativas. Dentre eles, três chamam a atenção: a primeira capela, os cemitérios e as matas virgens. A primeira capelinha de 1856, erigida nos tempos dos Barreto, foi o primeiro local de congraçamento entre os antigos moradores do arraial. É natural, portanto, que ela tenha sido o primeiro ícone de formação das lendas. Dentre elas, vale a “lenda do rabo da cachorra” do Padre Sassi (segundo a qual teria ele enterrado sua cachorra perdigueira no campo santo e, quando o rabo dela, crescendo por baixo da terra, encostasse na capela, Barretos sucumbiria) e a caçada entre os irmãos Marques – Inácia e Inocêncio (em que Inocêncio teria atirado em um veado na frente da capela, e sua vida teria caído em tristeza depois disso). O cemitério, desde sua primeira formação ao atual Cemitério da Paz, é talvez o lugar em que as lendas mais “vivem”. Túmulos como os da Santinha do Ibitu ou da Santinha dos Amores Impossíveis transformaram histórias cruéis e reais em lendas de santas e de graças. 

Existem também lendas que surgiram com a intenção de explicar fatos históricos, naturais e reais – geralmente é assim que elas se formam. A mais famosa é a da “Geada e do Fogo Bravo de 1870”, a qual, por ocasião de um artigo de jornal, transformou uma geada e um grandioso incêndio, reais, na justificativa da prosperidade econômica da pecuária de Barretos. Tem-se também, voltando mais uma vez ao charmoso distrito de Ibitu, a “praga dos padres” ou “as lágrimas do santo” que tentam justificar a destruição da vila, no ano de 1926, diante do tenebroso ciclone que a assolou.

Por essas poucas linhas, nota-se o quanto as lendas dão sabor à História. Não é preciso acreditar nelas, apenas vislumbrar as janelas que elas abrem para o passado.