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Capital do nada acontece

O Diário - 5 de maio de 2026

Capital do nada acontece

Marcelo Murta

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Lugar estranho este tal de Cafundó. Comunidade perdida no fim do mundo. Rua principal de terra ida e volta. Se acelerar não vê nem começo, nem fim. Quintais sem muros com roupas esvoaçantes nos varais. Velhas cisternas de madeiras envelhecidas suspiram. Baladas de sábado a noite na venda do Zé Tinhoso. Sinfonia da Saudade. Rally de bicicletas enferrujadas pilotadas por meninos de cara suja. O sol derrete o vento. Rede de relacionamentos são cadeiras na calçada. Quando falta assunto, inventa-se histórias de assombrações. Os dias se repetem. Capital do Nada Acontece. Carroça de vender pão buzina para chamar Dona de Casa. Praça de bancos azuis descascados. Coreto fantasma. Cachorro sarnento cochilando no degrau da igrejinha. Majestosa mangueira exibe sua sombra. Ar condicionado de pobre é árvore de copa alta. Perfume de almoço exala do fogão a lenha. Moringa de água fresca. Brilho da lua acendendo lampiões. Iluminação pública com cheiro de diesel queimado. Cruz de benzer devotos. Coroinhas com roupas de anjos. Alegria efêmera de quermesse. Radinho de pilha tocando Trio Parada Dura. Sanfoneiro solitário só canta depois da homilia. Noite de lua cheia de soltar lobisomem. Janelas fechadas para esconder as virgens. Briga de rua na esquina do pecado. Povo crescendo sem futuro. O poeta declama sua paixão. Pedido de casamento a moda antiga. Benção de pai para autorizar a relação. Salve, Santo Antônio casamenteiro. Lá onde o IBGE não chega. Enfermeira só tem Dona Ana Benzedeira. Remédio que cura é de ervas da mata. Hospital natureza. Distrito que não vai virar cidade. Ali onde a Solidão abraça a Esperança. Abraços Cavalares.