Artesã transforma linhas e memórias em peças únicas
O Diário - 10 de maio de 2026
MULHER: Maria Cristina “Kiki”, persistência e resiliência na vida e no artesanato
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Trajetória de Maria Cristina de Souza Hoft, a Kiki, é tema de reportagem assinada por Rosa Carneiro
Hoje minha entrevista é com uma senhora, que conheço há muito tempo e a admiro muito pela sua sensibilidade, coragem e inteligência. “Uma autêntica heroína”.
Maria Cristina de Souza Hoft, conhecida como Kiki, barretense, perfeita em tudo que faz com as mãos. Uma infinidade de artigos lindos de confecções como: bordados, crochês, tricôs, transformados em blusas, vestidos, coletes, casacos, bolsas, toalhas, aparadores para mesa e muito mais. Por isso nomeei a entrevista de “Confecção Afetiva da Kiki”, pelo amor que dedica a tudo o que faz. Kiki é a filha mais nova de Amilton de Souza e de Maria Gai de Souza. Pais e irmão já falecidos e uma irmã casada que mora fora de Barretos. Casou-se com Carlos Oscar Hoft, mas enviuvou há muito tempo. Possui um filho, Rodolfo Adriano Hoft. Sua empresa tem 40 anos. Começou com uma máquina. Rodolfo tinha 3 anos e daí tentou e conseguiu, com muito esforço chegar onde está hoje. Após esta introdução, caro leitor, exponho abaixo a entrevista de Maria Cristina de Souza Hoft, que considero uma heroína pela vida vivida.
Maria Cristina de Souza Hoft - Confecção Afetiva da Kiki
Rosa: Kiki, como chama sua empresa?
Kiki: Não tem nome, todo mundo fala “Artesanato da Kiki”. Mas algumas clientes gostam de “Confecção Afetiva”.
Rosa: Kiki, conta-me um pouco a história da tua vida.
Kiki: Eu comecei com o artesanato, pois tinha o Rodolfo pequeno e precisava sustentá-lo. Comprei essa máquina da irmã de uma vizinha. Em seguida comprei a segunda máquina, porque a primeira deu certo. Fiquei anos fazendo tricô e para melhorar a peça eu colocava algum acabamento e fazia também algumas peças em crochê. No susto, não sei por que, comecei a bordar sozinha. Hoje tem o Pinterest, com aplicativos para quem quer aprender bordar, fazer crochê, tricô. É só entrar no aplicativo. Foi dessa maneira que fui aprendendo. Então apareceu a moda usando muitos bordados, crochês, tricôs. Eu já havia parado de trabalhar fora. Antes, eu trabalhava de secretária. Trabalhei muito tempo para Nilson Barroso e trabalhei na antiga empresa Machione, era secretária e telefonista. Eu acordava de madrugada, às vezes tecia uma blusa. Nos fins de semana eu viajava para o Paraguai e comprava tapetes, bebidas e artigos de decoração para vender e para pessoas que encomendavam. Mas estava ficando difícil! Bandidos começaram a assaltar os ônibus, inclusive fui assaltada duas vezes. Meu pai pediu que eu parasse. Fiquei trabalhando de secretária, Precisava trabalhar! Meu filho pequeno, não tive pensão do ex-marido. Na época ele ia me dar meio salário-mínimo. O salário-mínimo era cento e pouco, a pensão seria metade desse valor. Meu pai falou “Minha filha larga mão disso. Se fosse uma pensão de milhões, você podia ir em porta de Fórum, reivindicar seus direitos , mas essa pensão de cinquenta, deixa quieto”! E assim eu fiz. Parei com o serviço fora de casa, parei com Paraguai. Resolvi trabalhar em casa. Achei que não ia dar conta, mas dei!
Rosa: Você estudou?
Kiki: Eu estudei, sou formada em Educação Física pela Universidade de Ribeirão Preto, antes da UNAERP, fiz o antigo ensino médio. Eu fiz o profissionalizante de Nutrição Dietética no Colégio Industrial, que hoje é o CETEC, Paula Souza. Minha turma foi a primeira que formou em Nutrição Dietética.
Rosa: Nesses 40 anos que você está trabalhando em casa, teve muitas dificuldades?
Kiki: Eu sempre tive, mas não vejo como dificuldade. Eu vejo assim: “estou em situação difícil”. Porque sempre vivi apertada, eu aprendi controlar, então não sei o que é dificuldade e nem se posso falar que tenho situação difícil hoje, mediante muita coisa que tenho visto, acho que consegui vencer. Vejam: eu criei, formei e casei Rodolfo praticamente sozinha. Não foi fácil! Tive momentos que precisei de ajuda emocional e onde achar? Quando o filho é um menino, depois adolescente, vem os problemas, as preocupações. A gente se preocupa com drogas, amizades, estudos, bebida. O pai nunca foi presente, sempre foi uma pessoa ausente. Eu fui pai e mãe. E aí a gente tem que fazer o quê? Na hora que eu mais precisei, faleceu minha mãe, dali nove meses meu pai, dali nove meses meu irmão. Rodolfo estava com 16 anos, uma idade terrível: amigos, festinhas, bebida, e tudo o mais que adolescestes enfrentam. Mas Rodolfo passou a fase adolescente com muita tranquilidade. Quando o pai morreu, ele já estava encaminhado, formado, professor, ministrando aulas. Anos depois prestou concurso do Estado em História e passou. Então foi para São Carlos, onde se efetivou e trabalha lá até hoje.
Rosa: Queria saber como você superou todos esses desafios?
Kiki: Acho que eu superei. Não sei, ainda tenho desafios para superar. Mas também acho que na idade que cheguei, resolvo tudo rápido.
Rosa: Quem fez o seu atelier ficar tão bonito e se destacar tanto?
Kiki: Quem fez isso aqui? Eu? Preciso de flores, plantas, fotos, enfeites, coleções de objetos para viver bem. É o que eu gosto. Uma amiga diz que tenho um acervo aqui! Eu acho que eu tenho um lado bem hippie.
Rosa: Você começou fazendo um crochezinho, agora faz vestidos lindos, blusas, coletes, aparadores, toalhas, bolsas. Você ama o que faz Kiki?
Kiki: Eu acho importante gostar do que se faz. Quando se gosta do que se faz, você coloca amor e aquilo fica mais bem feito e bonito.
Rosa: Você acha que seu negócio, seus bordados, tudo que você faz lindamente, representa alguma coisa para a comunidade?
Kiki: Não sei! Eu vi uma reportagem no Instagram, de uma artista com um vestido de crochê lindo, maravilhoso. O vestido foi feito na França, por crocheteiras francesas. Aí o que me chamou atenção foi a colocação da pessoa que postou o vestido. Ela escreveu: “ Ela compra o que quer, o dinheiro é dela, ela manda fazer onde ela quiser, porque na postagem que apareceu o vestido dela, é alta moda”. Na postagem da reportagem a moça falou: ” Engraçado! No Brasil não tem valor, no Brasil seria artesanato. Na França, na Europa, é alta costura, alta moda. Aqui no Brasil é artesanato e não tem valor”.
Rosa: Kiki, qual sua relação com os clientes?
Kiki: É das melhores, porque antes de fazer uma peça, a cliente me consulta do modelo, cor da linha, tipo de pontos de crochê ou tricô. Como tenho experiência, dou as dicas necessárias e então o trabalho fica perfeito. Assim o relacionamento com a cliente permanece e até melhora.
Rosa: Você tem planos para o futuro? Tem algum plano, alguma coisa que queira fazer para você e para o Rodolfo, e não conseguiu?
Kiki: Ah, ultimamente não penso muito, porque se a gente pensa muito no futuro, depois não realiza! Não sabemos o dia de amanhã. Mas sempre tive muita vontade, de morar em um sítio, ou ter um terreno, uma chácara, mas hoje está perigoso. Eu tenho vontade de mexer com tempero, ervas finas. Plantar ervas finas para vender para os restaurantes, arrumar uma pessoa, um colaborador para fazer os canteiros, porque gosto de plantar. Ainda tenho esse sonho!
Rosa: Kiki, você é muito forte, ágil. Como anda sua saúde?
Kiki: Eu sou muito ágil, eu sei! Mas tenho sequelas, nos braços e na coluna. 40 anos fazendo a mesma coisa, acabou com minha saúde, mas não quero pensar nisso, gosto de trabalhar e pretendo continuar.
Rosa: Eu quero que você me fale uma frase que represente sua vida, seu trabalho.
Kiki: Uma frase não sei, não me lembro, mas tive uma amiga, uma senhora mais velha que eu, que me ensinou muito, seu nome era Terezinha Moreira. Estava sempre me orientando, foi o meu esteio nas percas que tive. Eu tinha muita amizade e respeito por ela. Ela também fazia crochê, bordava, bordava pedraria e era professora aposentada. Nós tínhamos uma afinidade, uma parceria perfeita. Ela foi a mãe que perdi cedo. Ela dizia que o trabalho honesto é um presente de Deus e eu sempre acreditei nela.
Rosa: Kiki, terminamos a entrevista. Achei sua história de vida muito significativa: exemplo de dignidade, coragem e persistência.
Você daria um conselho para as pessoas que lutam para fazer e viver do artesanato?
Kiki: Eu diria assim: Procurem aprender, fazer bem-feito, combinar bem os tons das linhas, o que prometeu fazer, entregar, cobrar um preço justo e sempre procurar novidades para oferecer às clientes. Assim fazendo não há erro, o sucesso vem rápido.




