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O Silêncio que Assusta – Ansiedade em modo on-line

O Diário - 14 de maio de 2026

O Silêncio que Assusta – Ansiedade em modo on-line

Aparecido Cipriano

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Era só mais uma noite comum, daquelas em que o silêncio deveria embalar o descanso. Mas não para muitos. O celular repousa ao lado do travesseiro, não como objeto, mas como extensão do próprio corpo. A tela apagada parece chamar, mesmo sem emitir som algum. E vira de um lado para o outro. Fecha os olhos. Tenta dormir. Em vão. A ansiedade surge como um sussurro insistente: “E se alguém mandou mensagem?” Irresistível...  Acende a tela. Nada de novo. Ainda assim, o alívio momentâneo foi suficiente para enganar um coração acelerado.

Chamam isso de nomofobia — o medo de ficar sem o celular. Mas, para muitos de nós, é mais do que um nome difícil. É uma sensação real, física. As mãos inquietas, o pensamento disperso, o desconforto de estar desconectado, como se o mundo estivesse acontecendo sem sua permissão.

No trabalho, a cena se repete. Pequenas pausas se transformavam em longos mergulhos na tela. Uma notificação aqui, outra ali, e quando se percebe, o tempo havia escapado. A concentração já não é a mesma. O corpo está presente, mas a mente vagava entre aplicativos e mensagens.

Nunca desliga o celular. Nem para dormir. Como se, ao fazê-lo, perdesse algo essencial. A noite, que deveria ser descanso, torna-se vigília. Acorda no meio da madrugada, quase por reflexo, apenas para verificar se há algo novo — e quase nunca existe.

O organismo sente. O sono fragmentado, o cansaço constante, a ansiedade crescente. Mas ignora os sinais, como quem não quer admitir que está preso. Até que, um dia, percebeu o silêncio. Não o silêncio da ausência de notificações, mas o silêncio dentro de si. Assustador. Desconhecido. 

Não era o celular que mantém conectado ao mundo, mas ele que afasta você de si mesmo. E talvez, fosse hora de reaprender a desligar — não o aparelho, mas a dependência.