Pleonasmo
O Diário - 19 de maio de 2026
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Figura sintática
Existem expressões que, à primeira vista, parecem excessivas, mas permanecem vivas no uso da língua justamente porque reforçam aquilo que se deseja destacar. O pleonasmo, frequentemente associado apenas à repetição, consiste na retomada intencional de uma ideia já sugerida no enunciado, com finalidade expressiva. Sob essa perspectiva, a figura evidencia duas funções relevantes: a intensificação semântica do discurso e a valorização estilística da linguagem por meio da repetição.
O pleonasmo atua como recurso de reforço expressivo ao ampliar o sentido de determinada informação presente no enunciado. Em construções como “vi com meus próprios olhos” ou “chorou lágrimas sinceras”, a repetição não representa descuido linguístico, mas uma forma deliberada de enfatizar a experiência narrada. Esse mecanismo demonstra que, em certos contextos, repetir não significa empobrecer a linguagem, mas conferir maior intensidade ao que se pretende comunicar.
Além da ampliação semântica, o pleonasmo também participa da construção estética do discurso, atribuindo ritmo e expressividade ao texto. Em sequências como “sorriso nos lábios” ou “choramos um choro sentido”, a reiteração produz um efeito sonoro e enfático que amplia a força da mensagem quando empregada de modo consciente. A língua revela, portanto, que algumas palavras, ao retornarem ao discurso, não repetem apenas ideias, mas também ampliam sentidos e fazem a expressão ecoar na memória de quem a ouve ou a lê.
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie




