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Ordem e Progresso: e o mato ainda resiste

O Diário - 20 de maio de 2026

Ordem e Progresso: e o mato ainda resiste

Ana Paula Ferreira foi empregada doméstica e hoje é Pedagoga, Historiadora e Gestora

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Indo para o trabalho nessa manhã, peguei um carro de aplicativo, e o motorista estava ouvindo um Podcast e ouvi o diálogo dizendo que os grandes empresários, estão precisando mudar de ramo, porque não encontra mais mão de obra, porque as pessoas não querem mais trabalhar, querem viver de auxílio do governo e todas as conversas que já sabemos que vem a seguir. E olhando para essa narrativa historicamente falando, vai de encontro ao que muitos intelectuais trazem para a nossa reflexão, e fazemos de conta que não ouvimos: o Brasil é contra o progresso. É até curioso afirmar isso, com essa palavra, estampada em nossa bandeira nacional. Mas, começo a considerar que o lema do Brasil era temporal, e só serviu para a confecção da bandeira naquele momento. Porque a gente se depara com uma notícia que uma empregada de 19 anos, que foi torturada por uma senhora (que se acha dona dela), auxiliada por uma pessoa que jurou proteger e servir, falando que não poderia ir naquele momento porque estava alcoolizado e poderia não responder pelos seus atos, mas, no outro dia, cedinho, estava pronto para o massacre, portando um instrumento que estava proibido de usar há mais de dois anos, devido aos problemas psicológicos. A certeza da impunidade era tanta, que a pessoa relata em áudio e conta detalhes, que a cada palavra, vão aumentando mais camadas. Essa é a ordem? Para não entregar os maus, os bons se calam? Esse sempre foi o medo de Martin Luther King... omissão de socorro seletiva. Nos meios de comunicação, mesmo Samara, sendo vítima, ela ainda é a empregada, e a agressora, sua patroa.... Em 2025, o governo federal resgatou 2.772 pessoas de trabalho análogo à escravidão no Brasil, representando um aumento de 26,8% em relação a 2024, dessas, 83% das resgatadas eram pretas ou pardas, 86% homens, com crescente número de mulheres (14%), e 68% dos resgates ocorreram em centros urbanos. Se o progresso exige a desumanização de quem trabalha, nossa ordem não passa de um método refinado para manter o passado no lugar? O simulador de escravidão, saiu do aplicativo para a vida real? Vigie e denuncie... disque 100.