Michael Jackson e Shakira: quem pode ocupar o centro do mundo?
O Diário - 21 de maio de 2026
Kleber Aparecido da Silva é Professor Associado 4 do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais e em Linguística na Universidade de Brasília. Foi Visiting Scholar em Stanford University, Penn State University e CUNY Graduate Center, em New York. É Bolsista em Produtividade em Pesquisa pelo CNPq
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Durante muitos anos, a MTV praticamente excluía artistas negros de sua programação. Foi necessário que Michael Jackson rompesse barreiras raciais explícitas para que videoclipes como Billie Jean e Thriller ocupassem espaço de destaque na televisão mundial. Sua presença não representou apenas sucesso artístico, mas uma ruptura política dentro de uma indústria profundamente marcada pela desigualdade racial.
Décadas depois, outro fenômeno chama atenção. A escolha de Shakira para um dos maiores eventos musicais do Rio de Janeiro provocou questionamentos como: “Por que ela?” ou “Por que uma artista latina?”. Embora muitas vezes veladas, essas reações revelam uma dificuldade histórica de reconhecer artistas do Sul Global como protagonistas legítimos da cultura mundial.
Michael Jackson e Shakira, cada um à sua maneira, expõem disputas sobre pertencimento, visibilidade e reconhecimento. No caso de Michael, a tensão racial sobre a circulação de corpos negros na mídia estadunidense. No caso de Shakira, o incômodo diante de uma mulher latina ocupando um espaço global sem abandonar sua identidade cultural.
Um detalhe simbólico chamou atenção no show da cantora: ela falou em português durante grande parte da apresentação. A linguagem nunca é neutra. Quando uma artista internacional escolhe dialogar com o público local em sua própria língua, ela produz identificação e pertencimento.Pesquisadores decoloniais como Walter Mignolo e Aníbal Quijano já demonstraram que a colonialidade permanece viva nas formas como hierarquizamos culturas, idiomas e saberes.
Discutir música e entretenimento também é discutir poder. Afinal, quem aprendemos a considerar como centro do mundo? E quais vozes ainda insistimos em tratar como periféricas, mesmo quando já ocupam o palco principal? Talvez a grande urgência do nosso tempo seja justamente desaprender hierarquias culturais naturalizadas e reconhecer que o Sul Global não é ausência, mas potência cultural, histórica e linguística.




