Quando o cansaço é existir
O Diário - 28 de maio de 2026
Mari Armani, psicóloga e especialista em psicanálise. Instagram: @mariarmani.psi
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A depressão na vida adulta nem sempre aparece como tristeza evidente. Muitas vezes, manifesta-se como um cansaço profundo, uma sensação de vazio e perda de sentido, mesmo quando a rotina segue aparentemente normal. Diferente da tristeza que tem causa reconhecida e permite elaboração, a depressão envolve uma perda difícil de nomear, levando o sofrimento a se voltar contra o próprio sujeito.
Nesse estado, surgem autocríticas intensas e persistentes, como se houvesse um “tribunal interno” que esgota emocionalmente. O tempo psíquico parece estagnado, o futuro perde significado e até pensar ou sentir se torna cansativo. Experiências emocionais não elaboradas permanecem como um peso interno, sem forma ou linguagem.
A psicanálise compreende esse sofrimento como uma dificuldade de transformar dor em narrativa. Quando a experiência não vira história, ela se fixa como sensação difusa e solitária. O trabalho clínico, nesse contexto, busca oferecer escuta e construção de sentido, permitindo que o indizível ganhe palavras.
Além de questão subjetiva, a depressão é um problema de saúde pública, afetando milhões de pessoas e impactando a qualidade de vida. Diferente da tristeza que “diz perdi algo”, a depressão sugere “eu sou a perda”.
Ainda assim, há possibilidade de transformação. Pequenos movimentos de sentido já indicam mudança. Buscar ajuda profissional é essencial quando o sofrimento persiste, pois falar pode ser o primeiro passo para aliviar o peso e recuperar a vida.




