Polissíndeto
O Diário - 7 de junho de 2026
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Figura sintática
Há momentos em que a repetição de uma palavra não empobrece a linguagem. Ao contrário, faz com que uma ideia ganhe força, permanência e intensidade. Esse efeito pode ser percebido quando determinadas conjunções reaparecem sucessivamente no enunciado, recurso conhecido como polissíndeto. Nessa dinâmica de repetição intencional, destacam-se duas consequências expressivas: o reforço enfático das ideias e a criação de um ritmo capaz de ampliar o impacto da mensagem sobre quem a lê ou a escuta.
O polissíndeto intensifica o conteúdo do discurso ao atribuir destaque individual a cada elemento coordenado. Em exemplos como “E fala, e ri, e canta” ou “E falei, e gritei, e tentei, e gesticulei, e pedi ajuda, mas ninguém parou para socorrer o gato acidentado”, a repetição da conjunção impede que as ações se fundam em uma enumeração simples. Com isso, cada informação adquire maior relevo semântico, demonstrando que a insistência estrutural pode fortalecer significativamente a construção do sentido.
Também merece destaque a capacidade do polissíndeto de organizar o ritmo e ampliar a expressividade textual. Em sequências como “Nem cansa, nem desiste, nem recua” ou “E sonha, e espera, e realiza”, a recorrência das conjunções cria uma cadência marcada que conduz a leitura e intensifica a percepção das ideias apresentadas. Assim, a língua revela que certas palavras, ao retornarem deliberadamente ao discurso, deixam de atuar apenas como conectivos e passam a funcionar como compassos que marcam o ritmo do próprio pensamento.
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie



