Amor pelo ofício marca a trajetória de sapateiro em Barretos
O Diário - 7 de junho de 2026
Por ROSA CARNEIRO especial para O Diário
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Jornada de Elson Martins é tema de reportagem da acadêmica Rosa Carneiro
Estive, dias atrás, com Elson Martins e sua esposa, Estela. O que me impressionou foi sua forte e sincera personalidade, voltada para o dever de sempre se suplantar com o “fazer bem-feito” tudo o que faz, ligado à sua profissão. Elson é sapateiro, com uma história longa de trabalho e cuidados com o que sempre fez: consertar calçados. Nasceu em Paulo de Faria, veio para Barretos com 5 anos e nunca mais saiu daqui. Hoje está com 65 anos. Seu pai Nelson Martins e sua mãe Otília Francisca Martins, hoje falecidos, possuem três filhos vivos: nosso entrevistado Elson, Nelson Filho, Elcimar Francisca Martins, e a quarta filha, Nalva Francisca Martins, falecida há alguns anos.
As respostas para minhas perguntas são transmitidas ao leitor nas palavras do próprio entrevistado. Então, segue a entrevista.
Para Elson Martins, perseverança é o caminho do sucesso
ROSA: Me fale sobre sua família?
ELSON: Eu me casei muito novo, jovem ainda, com 21 anos, minha esposa com 20, e nós já temos hoje 44 anos de casados. Temos duas filhas. A mais velha, Aline, fisioterapeuta, que é casada, já com um casalzinho de filhos e que é uma alegria para nós; e a mais nova, Amanda, que é artista plástica, mora nos Estados Unidos há 13 anos. Então, essa é a família que Deus me deu e eu sou grato sempre.
ROSA: Qual o nome de sua empresa? E seu segmento?
ELSON: Não tem nome específico, a maioria das pessoas conhece como Elson Sapateiro. Eu conserto calçados.
ROSA: Faz tempo que você começou a trabalhar como sapateiro?
ELSON: Eu comecei com 12 anos de idade. Eu estou com 65, então há 53 anos atrás.
ROSA: Você abriu o seu negócio por quê?
ELSON: Eu aprendi a trabalhar na Sapataria São Marcos.
ROSA: Ah, lá do Marquinho, hoje do Alex?
ELSON: Do Marquinho. Inclusive, eu sempre gosto de enaltecer o nome dele, porque foi uma pessoa fantástica na minha vida. Além de ser um excelente profissional, ele sempre incentivou os funcionários a terem o próprio negócio. Então, eu trabalhei com ele 10 anos e, depois disso, eu montei a minha sapataria ali na 29 com a 12, onde eu fiquei por 43 anos.
ROSA: Você estudou até que ano?
ELSON: Eu estudei até a oitava série. Quando eu comecei a aprender a profissão, depois eu parei de estudar, precisava trabalhar, me casei, constituí família. Depois disso é que eu fiz um supletivo para terminar o segundo grau.
ROSA: Quais as dificuldades que você encontrou na profissão?
ELSON: As dificuldades, eu não posso dizer que são dificuldades, porque sempre foi um prazer para mim trabalhar como sapateiro. Desde criança eu amei esse tipo de profissão, então eu não encontrei dificuldade, sempre era um desafio, e eu sempre gostei de desafios.
ROSA: Você já pensou em desistir?
ELSON: Não! Nunca pensei em desistir. Minha vida se resume à minha família e ao meu trabalho.
ROSA: O que fez o seu negócio se destacar?
ELSON: Eu acredito que seja a vontade de fazer bem-feito. Como gosto, faço com amor, então eu acredito que, com isso, consegui muitos e bons clientes.
ROSA: O negócio do senhor representa alguma coisa para a comunidade?
ELSON: Eu acredito que sim, porque é uma prestação de serviço que satisfaz o cliente e, consequentemente, isso é um presente para mim, porque eu me sinto valorizado pelo que faço.
ROSA: Como é a sua relação com os clientes?
ELSON: Fazendo uma autoanálise, eu acredito que seja uma relação muito boa, porque eu sempre procurei me dar bem com a maioria, não com todos, porque é difícil.
ROSA: Você tem alguma história com algum cliente? Pode ser boa e pode ser ruim, pode ser uma história que aconteceu, que ficou na sua memória. E um dia você pode contar para os teus netos?
ELSON: Deixa-me puxar aqui da cabeça alguma coisa. São tantas passagens que a gente teve, mas o que marca muito para a gente é o reconhecimento do cliente. E isso não tem preço. E a gente procura fazer da melhor forma, e às vezes não consegue agradar a todos, mas conseguindo atingir uma porcentagem boa, eu acho que é o suficiente para se autorrealizar. Mas me lembro de uma senhora que chegou na minha oficina com um tapete persa, rasgado em um canto. Humildemente perguntou para mim: “O senhor conserta tapetes?” “Deixa-me ver o estrago”, respondi. Enquanto eu examinava, ela foi falando que já havia levado até Ribeirão Preto e ninguém conseguiu fazer o serviço. Eu lhe disse: “Deixa-me examinar se consigo emendar esses fios e arrumar o desenho”. “Posso voltar amanhã?”, perguntou ela. No dia seguinte, ela apareceu. O tapete estava consertado! Ela deu um grito de alegria! Foi uma satisfação maior para mim quando ela me explicou que foi o último presente que ganhou de seu esposo e que ele havia falecido no mês anterior. Até hoje ela é nossa amiga.
ROSA: Você já ganhou algum prêmio da Prefeitura ou algum reconhecimento pelo teu trabalho?
ELSON: Eu já tive um convite do Domingues Netto (em memória), no Dia do Sapateiro. Ele me convidou para fazer uma reportagem no rádio. Eu fui com todo o prazer, inclusive ele era cliente meu. Que Deus o tenha em bom lugar. E a Vale TV também, com a Sandra Moreno, que me convidou para fazer uma matéria. Então, foi o Diamantino na sapataria fazer uma matéria comigo.
ROSA: Quais os seus planos para o futuro?
ELSON: Os meus planos para o futuro, com relação à minha profissão, é que eu gostaria de deixar um legado maior. Já passaram comigo vários adolescentes que aprenderam o ofício, hoje trabalham, têm o seu próprio negócio, mas eu gostaria de ampliar isso. Tenho planos de fazer um trabalho online, ensinando a arte de consertar calçados, para atingir um grupo maior de pessoas, ampliar para que as pessoas se interessem mais pela profissão, porque a gente vê hoje, nos últimos tempos, que não tem mais meninos interessados em aprender esse tipo de profissão. Não tem interesse nenhum! Nenhum! Hoje em dia, compramos calçados com acabamento fraco e logo descolam, descosturam. Principalmente tênis, que depois de duas usadas já precisa consertar.
ROSA: O que significa para o senhor fazer essa entrevista?
ELSON: Para mim é uma satisfação imensa. Eu fico lisonjeado pela iniciativa da senhora de estar colocando a arte da sapataria para as pessoas que, às vezes, nem têm noção do que seja e da importância que é um sapateiro na coletividade.
ROSA: Que conselho você daria a quem está começando?
ELSON: Eu diria que, e eu trago isso como um slogan para a minha vida, da minha professora de primário, Dona Iolanda de Barros, muito conhecida na cidade. Ela dizia para nós, como alunos: “Tudo o que for fazer, faça bem-feito”. Então, para aqueles que têm interesse de crescer na profissão, em qualquer profissão, que procurem fazer da melhor maneira possível, fazer como se fosse para você mesmo, como você gostaria que o teu calçado fosse consertado.
ROSA: Qual frase representa essa sua trajetória de todos esses anos?
ELSON: A frase que eu diria é sobre perseverança. É perseverar em tudo aquilo que você for fazer. Fazer, desmanchar, fazer de novo, perseverar, procurar fazer com excelência. Eu acho que Deus fica feliz quando nosso trabalho é feito com amor, pois Ele trabalhou com muito amor para construir um mundo tão perfeito para o ser humano.



