O problema não é o inglês de Wilton Pereira Sampaio
O Diário - 17 de junho de 2026
Kleber Aparecido da Silva é Professor Associado 4 do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais e em Linguística na Universidade de Brasília. Foi Visiting Scholar em Stanford University, Penn State University e CUNY Graduate Center, em New York. É Bolsista em Produtividade em Pesquisa pelo CNPq
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Durante a abertura da Copa do Mundo, o árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio tornou-se alvo de comentários e memes nas redes sociais por causa do inglês utilizado para se comunicar com jogadores e membros das comissões técnicas. O episódio revela uma questão que vai muito além do futebol: a persistência do preconceito linguístico em uma sociedade que ainda associa competência e prestígio a determinados padrões de fala.
Em vez de avaliar a eficácia de sua comunicação em um contexto internacional, muitos concentraram suas críticas em sua pronúncia. O foco deslocou-se da mensagem para o sotaque, reproduzindo a ideia de que apenas determinadas formas de falar inglês seriam legítimas. Como argumenta Rajagopalan (2003), a figura do falante nativo foi historicamente construída como parâmetro de legitimidade linguística, produzindo hierarquias entre os usuários da língua.
Entretanto, o inglês contemporâneo é uma língua global. Segundo Crystal (2003), ele é utilizado por milhões de pessoas em diferentes contextos culturais e deixou de pertencer exclusivamente aos países anglófonos. Estudos sobre World Englishes e inglês como língua franca mostram que existem múltiplas formas legítimas de utilizar a língua (KACHRU, 1985; JENKINS, 2015).
Sob a perspectiva da Linguística Aplicada Crítica, as línguas estão atravessadas por relações de poder que definem quais vozes são valorizadas e quais são marginalizadas (PENNYCOOK, 2001). Assim, ridicularizar o sotaque de um profissional brasileiro em atuação internacional significa reforçar desigualdades simbólicas e desconsiderar a diversidade linguística que caracteriza o mundo contemporâneo. O caso de Wilton Pereira Sampaio nos convida a refletir sobre a necessidade de respeitar as diferentes variedades linguísticas. Afinal, o verdadeiro problema não está na forma como um brasileiro fala inglês, mas na persistência de uma mentalidade que ainda confunde sotaque com incompetência. A riqueza das línguas reside justamente na diversidade de vozes que as constituem.



