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Quando ninguém escreve: a solidão do envelhecer

O Diário - 19 de junho de 2026

Quando ninguém escreve: a solidão do envelhecer

Gabriela Gianjiope Valdambrini, estudante do 5. Período do curso de medicina da FACISB, orientada pela professora Melina Destri Garcia

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“O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão.” A reflexão de Gabriel García Márquez, em Cem Anos de Solidão, revela, com delicadeza, uma realidade frequentemente invisível: a velhice não se impõe apenas pelo passar dos anos, mas pela experiência do isolamento. Em Ninguém Escreve ao Coronel, essa ideia ganha forma na figura de um homem que espera, dia após dia, por uma carta que nunca chega. Mais do que uma correspondência, o coronel aguarda reconhecimento, sentido, presença. Sua espera não é apenas material — é profundamente humana. Ao acompanhá-lo, compreendemos que a solidão não se resume ao estar só, mas ao sentir-se esquecido, desconectado e à margem. Fora da ficção, essa realidade se repete de maneira silenciosa e persistente. Muitos idosos atravessam rotinas marcadas por dias longos, nos quais o tempo se dilata e o silêncio ocupa espaços antes preenchidos pelo trabalho, pelos vínculos e pela convivência. Mesmo quando cercados por pessoas, não é raro que experimentem a ausência do essencial: a escuta genuína, a troca afetiva e o sentimento de pertencimento. Do ponto de vista médico, a solidão deixou de ser compreendida como uma vivência subjetiva para ser reconhecida como um importante determinante de saúde. Evidências científicas demonstram sua associação com maior risco de depressão, declínio cognitivo, doenças cardiovasculares e mortalidade precoce. Seu impacto pode se equiparar ao de fatores clássicos, como o tabagismo e o sedentarismo. Ainda assim, na prática clínica, essa dor costuma passar despercebida. Não se expressa em exames laboratoriais, não altera diretamente os sinais vitais e raramente se apresenta como queixa principal. Manifesta-se, antes, nas entrelinhas: na baixa adesão aos tratamentos, no desânimo, na perda de sentido e na piora silenciosa de doenças crônicas. Cuidar da saúde da pessoa idosa exige, portanto, um olhar que vá além da prescrição. Assim como o coronel de Márquez, muitos idosos seguem esperando — não por cartas, mas por algo ainda mais fundamental: atenção, reconhecimento e vínculo. E, por vezes, o que lhes falta não é um novo tratamento farmacológico, mas alguém disposto a escutar, a sustentar o encontro e a reconhecer sua existência.