Corpo e mente andam juntos, mas nem tudo é psicológico
O Diário - 27 de junho de 2026
Gabriela Forentino dos Santos, estudante do 5º Período do curso de Medicina da FACISB, orientada pela profª Roberta Thomé Petroucic
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A tendência de atribuir sintomas físicos e alterações comportamentais exclusivamente a causas psicológicas ainda é um desafio na prática em saúde. Apesar dos avanços do modelo biopsicossocial, que integra fatores biológicos, psicológicos e sociais, ainda persiste uma visão reducionista que interpreta manifestações clínicas apenas como emocionais, frequentemente baseada em impressões iniciais ou estigmas, o que pode levar a erros diagnósticos e comprometer a segurança do paciente. Embora fatores psicológicos influenciem os sintomas, sua aplicação indiscriminada pode gerar vieses, como o “diagnostic overshadowing”, no qual sinais de doenças orgânicas são negligenciados, resultando em rotulação inadequada e atraso na investigação e no início de tratamentos apropriados.
Um exemplo relevante são as infecções generalizadas, como a sepse, que frequentemente se manifestam de forma aguda. Embora tenham origem orgânica, podem causar sintomas como confusão mental, agitação e desorientação, muitas vezes confundidos com transtornos psiquiátricos. Essa interpretação equivocada é perigosa, pois a sepse está associada a alta morbimortalidade e indica gravidade clínica. Nesse contexto, essas alterações podem ser um dos primeiros sinais de comprometimento dos órgãos e sua não identificação precoce pode atrasar intervenções fundamentais, aumentando o risco de óbito e de sequelas permanentes.
A distinção entre causas orgânicas e psicológicas nem sempre é simples, pois o organismo funciona de forma integrada: as doenças podem se manifestar por alterações cognitivas e comportamentais, enquanto fatores emocionais podem intensificar sintomas físicos. Além disso, a sobrecarga dos serviços, o tempo limitado de consulta, a estigmatização dos transtornos mentais e a confiança excessiva em julgamentos iniciais favorecem simplificações inadequadas. Por isso, a avaliação clínica deve ser cuidadosa e sistemática, considerando diagnósticos diferenciais e priorizando a exclusão de causas orgânicas, especialmente em quadros agudos ou sem histórico psiquiátrico prévio, com escuta qualificada, exame físico e, quando necessário, exames complementares. Buscar equilíbrio entre as dimensões biológica e psicológica é fundamental para um cuidado mais seguro, ético e eficaz.



