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Repetição

O Diário - 30 de junho de 2026

Repetição

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

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Figura sintática

À luz do que se considera “o bom português”, vale lembrar que repetir uma palavra nem sempre significa falta de vocabulário ou descuido na expressão. Em diversas situações, a repetição ocorre de maneira intencional para destacar uma ideia e torná-la mais presente na percepção de quem a lê ou a escuta. Essa figura de linguagem, conhecida simplesmente como repetição, revela que o retorno deliberado de um mesmo vocábulo pode tanto intensificar o significado de uma mensagem quanto ampliar sua expressividade, produzindo efeitos que ultrapassam a mera retomada lexical.

A repetição atua como recurso de intensificação semântica ao reforçar conceitos que o enunciador deseja manter em evidência. Em exemplos como “Na solidão solitude...” ou “o vermelho da guerra, o vermelho das terras, o vermelho do nada”, a recorrência de determinadas palavras faz com que seus significados se acumulem progressivamente no discurso. Tal procedimento demonstra que a insistência lexical não representa redundância desnecessária, mas uma estratégia capaz de ampliar a força das ideias transmitidas.

Por outro lado, a repetição também contribui para a construção da expressividade e da memória textual. Ao reaparecer sucessivamente em versos, discursos ou narrativas, uma mesma palavra cria ritmo, cadência e permanência, como ocorre nos exemplos “O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente” e “Amor é fogo que arde... Amor é ferida... Amor é um contentamento descontente”. Assim, a língua revela que algumas palavras, ao retornarem ao discurso, não repetem apenas ideias, mas também ampliam sentidos e fazem a expressão ecoar na memória de quem a ouve ou a lê.

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie