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O racismo começa antes do apito inicial

O Diário - 18 de julho de 2026

O racismo começa antes do apito inicial

Kleber Aparecido da Silva é Professor Associado 4 do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais e em Linguística na Universidade de Brasília. Foi Visiting Scholar em Stanford University, Penn State University e CUNY Graduate Center, em New York. É Bolsista em Produtividade em Pesquisa pelo CNPq

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Toda vez que uma seleção entra em campo para disputar uma Copa do Mundo, ela representa muito mais do que um país. Representa também sua história, sua memória e a forma como escolheu contar essa história. A seleção argentina, por exemplo, desperta uma pergunta que incomoda: por que quase não há jogadores negros vestindo sua camisa? A resposta não está apenas no futebol, mas na maneira como a Argentina construiu sua identidade nacional. 

Durante décadas, o país cultivou a imagem de uma nação essencialmente europeia, relegando ao esquecimento a importante contribuição dos afrodescendentes para sua formação histórica. Seria um erro afirmar que essa ausência, sozinha, prova o racismo argentino. Mas seria igualmente ingênuo tratá-la como uma simples coincidência demográfica. Como ensina o jurista Silvio Almeida, o racismo é estrutural: ele organiza instituições, produz desigualdades e define quem ocupa os espaços de visibilidade e quem permanece invisível.

O futebol apenas revela aquilo que já acontece na sociedade. Afinal, quem aparece em campo é resultado de uma longa história que começa muito antes da convocação de um técnico. Começa nas escolas, nos livros didáticos, nas políticas públicas e na memória coletiva de um país. O Brasil também precisa fazer esse exercício. Embora nossa seleção seja marcada pela presença de atletas negros, isso não significa que tenhamos superado o racismo. As desigualdades continuam presentes nas universidades, nas empresas, na política e no acesso às oportunidades.

Talvez a pergunta mais importante não seja quem está em campo, mas quem continua ausente dos lugares de prestígio e poder. O futebol, nesse sentido, funciona como um espelho. E, muitas vezes, o que mais nos inquieta em um espelho não é aquilo que ele mostra, mas justamente aquilo que insiste em esconder.