Lima Barreto: aquele que conhecia o Brasil que criticava
O Diário - 28 de julho de 2026
KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e membro da Academia Barretense de Cultura | @profkarlaarmani
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Caro leitor, acabo de fechar a última página de “Triste fim de Policarpo Quaresma”, do célebre Lima Barreto, e não consigo pensar em outro assunto para dividir com você. Publicado há 115 anos, é um livro que todo brasileiro teria que ler na vida.
Embora o título já anuncie o desfecho da história, o romance é muito maior do que o triste destino de Quaresma. O fim, na verdade, é só o anúncio de que o visionário Quaresma vivia em um tempo que não estava preparado para o seu conceito de Brasil: na língua nacional, na agricultura e na política. Era preciso esperar a paisagem mudar e a abertura de um novo cenário para que suas ideias fossem entendidas. A esperança de um novo tempo sempre floresce, como pensou a afilhada Olga na última página do livro: “Esperemos mais”. Os visionários só são entendidos no futuro; enquanto, na boca dos autoritários, eles são apenas perigosos sonhadores. E aos literatos, “otimistas incuráveis”.
O romance de Lima Barreto foi inicialmente publicado como folhetim, no Jornal do Comércio. Escrita em 1911, durante o governo do marechal Hermes da Fonseca, a história ambienta-se por volta de 1893, durante a Revolta da Armada. Claramente, o livro é uma crítica social à “República que não foi”, ao autoritarismo dos militares, especialmente Floriano Peixoto. Mas, talvez fosse um alerta ao próprio tempo de 1911, que também tinha um militar como presidente e ainda era impregnado pelos ares do positivismo.
Em uma linguagem clara, acessível e versada em boa ironia e humor, Lima Barreto publicou uma obra que foi considerada pré-modernista, não só pelo estilo genuíno de escrever, mas por elencar o Brasil como tema. Muito culto, ele traz referências clássicas e nacionais em todos os personagens e ambientes (como não amar Ricardo Coração dos Outros?). Muito lúcido, ele protagoniza a loucura em situações diferentes, inclusive no destino de mulheres, como a triste Ismênia, e do próprio Policarpo. Muito surpreendente, ele contrapõe o óbvio e conduz o leitor a enxergar o heroísmo, mesmo em um triste fim, e a esperança, nos olhos de uma mulher: Olga.
Lima Barreto era muito moderno ao seu tempo, e necessário ao nosso.