David de Oliveira, imigrante que fez de Barretos a sua terra
Sandra Moreno - 1 de agosto de 2026
TRAJETÓRIA: Imigrante de Portugal, David fez de Barretos sua terra
Compartilhar
Trajetória de trabalho e perseverança retratada em entrevista especial à acadêmica Rosa Carneiro
Nascido em Portugal, a cerca de três quilômetros do Santuário de Fátima, David de Oliveira chegou ao Brasil com 18 anos e um mês. Pessoa boa, otimista, contador de histórias verdadeiras e com uma longa vida regada a êxitos e trabalhos edificantes. Filho de Joaquim de Oliveira e Maria Nazário. David, era o filho mais novo de uma família numerosa: os irmãos Manoel, Joaquim, Bento e José e as irmãs Emília, Lúcia, Maria, Laura e Conceição.
David e sua esposa Maria Alice, são amigos de coração que tivemos o prazer de cultivar por todos os anos de nossas vidas.
Viajamos juntos para Portugal onde Sergio e eu conhecemos alguns membros de sua família sempre unidos ao redor de uma mesa farta e alegre. De uma cultura sem par, apesar de ter cursado somente os 4 anos primários, David nos encanta com suas histórias vividas ao longo de seus 90 anos.
Resolvi entrevistá-lo porque para quem não o conhece vai ser prazeroso ler os detalhes de sua vida repleta de conhecimentos adquiridos na luta do dia a dia, com otimismo, alegria e pureza de coração. Então, convido o leitor de O Diário, para essa leitura especial.
Rosa: David, como se chama o seu segmento de trabalho?
David: Antes de imigrar, trabalhei dos 14 aos 18 anos como alfaiate. Na verdade, o imigrante não tem um segmento definido, certo? O imigrante se joga no mundo e enfrenta as intempéries todas e vai à luta. E ao imigrar, a gente renuncia a tudo, vai para um país estranho, diferente e aí recomeça do zero.
Rosa: Quanto tempo demorou a travessia de Portugal até o Brasil? Você chegou aqui com quantos anos?
David: A viagem ao Brasil demorou 23 dias até o desembarque em Santos. Trazia apenas 800 escudos, dinheiro da venda de minha bicicleta, entregue pelo meu pai na hora da partida. Gastei tudo durante a travessia, comprando comida para complementar a alimentação precária do navio. Eu vinha para um lugar chamado Adolfo Pinto, que na minha imaginação, era uma metrópole, porque eu tinha feito uma pesquisa muito simples e lido que no Brasil, os prédios eram altos porque o clima era muito quente e por isso faziam edifícios altos. Quando eu saí de Portugal com 18 anos com zero de instruções, tinha muito medo, medo de me perder em Adolfo Pinto, porque os prédios eram muito altos, as ruas eram estreitas. Na verdade, encontrei Adolfo Pinto a 700 quilômetros distante de Santos. Por problema de documentação, quase não pude desembarcar. Como iniciara o processo ainda menor de idade, constava que eu deveria ser entregue a um responsável no Brasil. Resolvida a situação, segui de trem por Santos, São Paulo até Adolfo Pinto. Cheguei às 11 horas da noite, no escuro. Fiquei apenas um dia. No dia seguinte vim para Barretos, onde dormi em um armazém da empresa Dias Martins, sobre uma pilha de sal, coberta por encerado de caminhão. Depois de dois dias, vi meu corpo manchado e pensei estar doente. Era apenas o efeito da falta de banho.
Rosa: Quais as dificuldades encontradas no decorrer de sua vida?
David: A partir da chegada, minha história foi feita de trabalho. Não encontrei dificuldades porque a vontade de vencer suplantava tudo. E assim, você vai para a roça, fui trabalhar de chapa na estrada de ferro. Lá trabalhava 12 horas por dia, e no domingo até meio dia. O fato de ter comida, de ter um apoio de trabalho suplantava tudo porque a gente tinha sede de independência. Passei por vários segmentos, inclusive por atividades rurais no sertão, em regiões como Goiás e Mato Grosso, durante aproximadamente 30 anos. Por isso afirmo que nunca enxerguei a dificuldade como motivo para desistir. Ao contrário, digo que a vontade supera tudo. Encontrei no Brasil acolhimento, respeito e oportunidade. Vim de um ambiente marcado por escassez e diferenças sociais rígidas em Portugal, e aqui me senti acolhido: “ o Brasil me abraçou”.
Rosa: Você já pensou alguma vez em desistir do teu dia a dia, da tua corrida?
David: Não, os meus negócios sempre tiveram uma sustentação muito sólida. Eu nunca tive aquele impacto de dizer não, eu vou mudar o meu estilo de vida, de trabalho, não é o meu caminho. Depois que cheguei no Brasil, que é um país altamente cativante e eu vim de um país que havia extrema discriminação ditatorial e discriminação entre ricos, pobres. Cheguei ao Brasil, sem nada, sem conhecer ninguém, mas todo mundo me abraçou, me recebeu. Aquilo foi o adubo principal, a força para eu enfrentar e não tentei nunca recuar e não tive nenhuma época de sofrimento e dizer que as coisas não estão dando certo agora. Hoje ao avaliar, eu entendo que às vezes, algumas coisas não davam certo, só que eu não percebia. Tudo estava bom para mim.
Rosa: Alguém o ajudou nas decisões, nos negócios?
David: Na verdade aprendi aqui e ali que tudo é investimento, juros, riscos. Quando se fala em investimento, se associa muito a dinheiro, né? O medo de errar é uma espécie de guia. Evito decisões sem retorno. Esse cuidado marcou também minha vida pessoal. Fiquei nove anos solteiro, até me casar com Alice, com quem estou casado há 63 anos.
Rosa: Seu negócio representa algo para a comunidade de Barretos?
David: Humildemente afirmo que meu trabalho, empreendimentos representam algo para Barretos. Antes de investir no setor imobiliário, vi que faltavam prédios comerciais de destaque em Barretos. Depois de pensar e me informar, percebi que as grandes empresas estavam procurando mudar seus estabelecimentos para lugares melhores e mais destacados e assim, como tinha alguns terrenos na Avenida 43, resolvi imigrar para o setor da construção civil, focando em inquilinos de primeira linha. Hoje sou um empresário do setor de imóveis, administro meus negócios com discrição e segurança. Discrição é uma qualidade que tento manter, sou um homem bem-sucedido mas não gosto de ostentação. Comprei um Porsche, incentivado por meu filho, mas quase não uso o carro. Deixo-o guardado com cerca de 2.100 quilômetros, porque prefiro ser reconhecido como David, não pelo símbolo externo de riqueza.
Rosa: Você tem clientes? Me fale de seu relacionamento com alguns.
David: Cliente? Sempre. A vida é uma parceria, certo? Todos nós somos clientes uns dos outros.
Rosa: Como você administra seus negócios?
David: Bem, hoje eu administro meus negócios com os braços cruzados. Sei que sou um empresário bem-sucedido porque aprendi que pagar juros eliminava todo o meu lucro. Então eliminei os juros. Como? Economizando, investindo: comprando e vendendo. Nos meus contatos de negócios, eu passei por muitas transições: fiquei 30 anos com negócios no sertão, na área rural, um dia resolvi descansar da roça e pensei: vou investir em prédios comerciais e foi o que eu fiz. Investi em importantes imóveis, sólidos e úteis para a comunidade.
Rosa: Davi, me conte alguma coisa interessante. Pode ser alegre, pode ser triste, pode ser piada. Com o cliente, com um desses clientes seus. Porque quem aluga seus imóveis são seus clientes. Concorda?
David: Sim. Com relação a clientes de negócios, eu não tenho praticamente contato e dirijo 100% dos meus negócios.
Rosa: David, o que significa essa entrevista para você?
David: Dentro da minha humildade, eu me sinto muito honrado em ser lembrado para uma entrevista. Barretos tem 130 mil habitantes, nós fazemos parte deste complexo e saber que eu vou tomar café lá na La Maison e ser conhecido como o português David, é muito prazeroso para mim.
Rosa: Quais os seus planos?
David: É uma pergunta que vem na hora certa. Porque eu costumo dizer o seguinte: a vitalidade do ser humano é o sonho. Pergunto a alguns amigos: você tem algum sonho, algum projeto? «Não, cumpri a minha missão, sou aposentado». Não, não é esse o meu caso. O meu caso são os projetos. Eu tenho um projeto na mente, como se já estivesse vendo. É o seguinte: vou fazer um prédio de cinco andares aqui na Avenida 43. No último andar vai ser a minha moradia.
Rosa: Você vai demolir tudo isso? Até sua casa?
David: Tudo. Vou trocar tudo. Só não vou trocar de esposa porque ela está comigo há 63 anos.
Rosa: Que conselho você daria para quem está começando agora?
David: Destaco a independência, disciplina e responsabilidade. Para os pais que tem adolescentes: pai, dialogue com seu filho, dê amor, atenção, ensine, assim você nunca vai perdê-lo. Outro dia alguém me perguntou: mas você não cansa de conviver com o seu filho? Eu respondi: não, porque ele aprende comigo e eu aprendo com ele. São as trocas de ideias que nos fazem crescer. Todo adolescente sonha com a liberdade. E é isso que eu dei para meus filhos. Não quero que a liberdade deles seja condicionada à minha vida. Então, pai, solte seus filhos e deixem que criem asas supervisionados por você.
Rosa: Com relação à família, como está seu relacionamento?
David: Sou uma pessoa ligada à família. Com minhas irmãs em Portugal, meus irmãos aqui. Em minha casa, reina a paz, alegria e harmonia.
Rosa: Agora, antes de terminar, faço a pergunta a Maria Alice.
Que conselho você daria para uma senhora, uma mulher que se casou com alguém como “David”?
Maria Alice: Eu me casei com um português, nunca imaginava que eu ia um dia conhecer Portugal. E foi um presente que Deus me deu, porque eu tenho tudo. Então, quem se casar com uma pessoa como David, é bem casada na vida. Porque eu tenho um marido bom, que me deu filhos, nunca me deixou trabalhar fora, e sempre me deu o conforto, apoio e me protegeu. Eu não sei o que é tristeza.
Rosa: David: Uma frase que representa sua trajetória.
David: Confiança, força de vontade e constância. Desistir é o primeiro passo para naufragar. Minha vida em Barretos representa mais do que sucesso individual. Eu acho que é retrato de uma geração que construiu patrimônio, família e respeito pelo trabalho duro, prudência e coragem.