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O Canhoto no Barretense Clube

O Diário - 4 de agosto de 2026

O Canhoto no Barretense Clube

KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e titular da cadeira 7 da ABC | @profkarlaarmani 

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Ricardo Coração dos Outros é o nome genial que Lima Barreto dá ao personagem amigo do protagonista Policarpo Quaresma no livro “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Trovador dos bons, Coração dos Outros compunha suas modinhas e as apresentava nas festas do subúrbio carioca. Embora levasse alegria e leveza às pessoas, ele não era devidamente valorizado como artista por ter como instrumento o violão, seu amigo inseparável. À época, no início do século XX, o violão era considerado um instrumento com ares de indolência e marginalidade, e quem o executava levava a mesma fama. Nos bailes oficiais, a polca figurava entre as músicas da elite e de referência, as modinhas de violão eram quase um escândalo. O instrumento de cordas, tão popular, precisou ganhar espaço aos poucos, assim como seus artistas. 

Coração dos Outros, portanto, representava um personagem da realidade brasileira: o músico popular. Dentre alguns violonistas do período, Américo Jacomino talvez seja um dos mais conhecidos por ter sido pioneiro do violão instrumental no Brasil. Popularmente conhecido como “Canhoto”, por executar o dedilhado do violão com a mão esquerda, ele foi responsável pelo enobrecimento do instrumento na cultura brasileira. Paulistano, percorria os palcos dos rincões do estado, permitindo que, aos poucos, o instrumento se fizesse presente entre populares e a elite dos clubes culturais.

Não tardou, então, a ser convidado a se apresentar em Barretos. Era o ano de 1917 quando o advogado Osório Rocha convidou o artista para fazer um recital. Ficando responsável por encontrar um teatro adequado, a pedido de Jacomino, Osório organizou a apresentação no salão do Barretense Clube. Marcada a apresentação e com tudo organizado, faltou iluminação na cidade no dia do recital, e ele precisou ser adiado. Remarcado, em um domingo, às 16h, mesmo debaixo de um temporal estrondoso que abafou um pouco o som de seu violão, o artista se apresentou pela primeira vez em Barretos ao lado de seu auxiliar Luiz Bono. Os aplausos dos barretenses foram ainda mais altos do que os trovões da tempestade. Tanto que ele voltou mais duas vezes a Barretos.

Personagem real que parecia ter escapado das páginas de Lima Barreto.