Gentileza agapástica: pequenos gestos que transformam
O Diário - 21 de agosto de 2026
Kleber Aparecido da Silva é Professor Associado do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais e em Linguística na Universidade de Brasília. Foi Visiting Scholar em Stanford University, Penn State University e CUNY Graduate Center, em New York. É Bolsista em Produtividade em Pesquisa pelo CNPq
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Vivemos em uma época marcada pela pressa, pela competição e por relações cada vez mais atravessadas pela intolerância. Nas redes sociais, nas ruas e até nos ambientes familiares e profissionais, muitas vezes respondemos antes de ouvir, julgamos antes de compreender e transformamos diferenças em conflitos. Nesse cenário, falar de gentileza pode parecer algo pequeno diante dos grandes desafios do mundo. Mas talvez seja justamente nos pequenos gestos que começam as grandes transformações.
A expressão gentileza agapástica nos convida a pensar a gentileza para além da simples cordialidade. Inspirada na ideia de agapismo, associada ao filósofo Charles Sanders Peirce, ela valoriza o cuidado, a cooperação e o crescimento conjunto. Não se trata apenas de dizer “bom dia”, agradecer ou oferecer ajuda. Trata-se de reconhecer que nossas vidas estão conectadas e que nossas atitudes podem produzir efeitos muito maiores do que imaginamos.
Uma palavra de incentivo pode mudar o dia de alguém. Um gesto de atenção pode devolver confiança a quem se sente invisível. Uma oportunidade oferecida pode abrir novos caminhos. Da mesma forma, uma atitude respeitosa diante de uma divergência pode impedir que uma discussão se transforme em hostilidade. A gentileza agapástica nos lembra que nossas ações podem inspirar outras pessoas e criar uma corrente positiva de cuidado. Ser gentil, porém, não significa ser ingênuo ou permanecer em silêncio diante das injustiças. Podemos discordar firmemente sem desrespeitar. Podemos denunciar uma violência sem reproduzi-la. Podemos estabelecer limites sem transformar o outro em inimigo. Em uma sociedade marcada por desigualdades, gentileza e justiça precisam caminhar juntas, reconhecendo a dignidade de todas as pessoas.
Talvez seja nas relações cotidianas que essa transformação comece: em casa, na escola, no trabalho, nas ruas e também nas redes sociais. Ouvir quem quase nunca é ouvido, reconhecer o esforço de alguém, respeitar diferentes trajetórias e oferecer ajuda são atitudes simples, mas profundamente humanas. Em tempos de intolerância e individualismo, a gentileza agapástica nos lembra de algo essencial: ninguém precisa diminuir o outro para crescer. Podemos construir uma sociedade na qual o cuidado, o respeito e a cooperação façam parte de nossas escolhas diárias. Afinal, um mundo mais humano começa quando decidimos que o outro também merece ser tratado com dignidade.