Padre Deusmar: 41 anos de vocação e acolhimento
O Diário - 6 de setembro de 2026
RELIGIÃO: Padre Deusmar é Pároco da Catedral do Divino Espírito Santo desde 2018
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Em reportagem especial para O Diário, a acadêmica barretense Rosa Carneiro conta a trajetória do padre Deusmar Jesus da Silva
Poucas pessoas se confundem tanto com a história recente de Barretos quanto o Padre Deusmar Jesus da Silva. Nascido na Fazenda Barretos, padre Deusmar é filho de Francisco Gonçalves da Silva e Zilda Ribeiro da Silva. Construiu a sua trajetória na cidade onde nasceu, tornando-se uma das figuras religiosas mais conhecidas e respeitadas da comunidade. Tem um irmão: Donizete Antônio da Silva e duas irmãs: Dagmar Aparecida da Silva e Denise Reis Matos que é adotiva.
Hoje, aos 65 anos de idade, completando 41 anos de sacerdócio, Padre Deusmar falou-me sobre sua profissão. “Sou sacerdote. Perante a lei, eu sou sacerdote católico. O sacerdócio civil não é profissão, é vocação. Não fui eu quem escolheu. É um chamado por Deus, então não é uma escolha. A questão da vocação é um dom de Deus. Eu me senti chamado ao sacerdócio”, disse.
Resolvi entrevistá-lo porque para quem não o conhece vai ser prazeroso ler os detalhes de sua vida repleta de conhecimentos adquiridos na luta do dia a dia, com otimismo, alegria e pureza de coração. Então, convido o leitor de O Diário, para essa leitura especial.
Se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria para ser padre”
Rosa: Onde o senhor começou sua formação?
Deusmar: Eu fiz o primeiro e segundo anos primários no colégio Mário Vieira Marcondes (Estadão). Inclusive a minha primeira professora é nossa paroquiana, a professora Marizilda. O terceiro e quarto anos primários, eu estudei no Benedito Pereira Cardoso, na Vila Rios. Cursei o ginásio na tradicional Escola Paulina Nunes de Morais e conclui o curso técnico em Química na Escola Soares de Oliveira, uma das mais disputadas na época.
Rosa: Quando aconteceu sua decisão de ingressar no seminário?
Deusmar: Foi justamente durante o curso técnico em química que amadureceu definitivamente a decisão de ingressar no seminário. Falei com uma tia muito religiosa, que não tinha filhos e exerceu papel decisivo em minha caminhada. Antes mesmo de contar a meus pais, contei a ela o desejo de ser padre e encontrei o incentivo que precisava para seguir em frente. Fui para o seminário em Ribeirão Preto onde iniciei o curso de filosofia. Cursei filosofia 3 anos e depois teologia, 4 anos. A ordenação sacerdotal aconteceu em 5 de janeiro de 1985, na Igreja Nossa Senhora do Rosário, paróquia que minha família fazia parte.
Rosa: Nesse período da vida, quais os desafios, as dificuldades que o senhor encontrou?
Deusmar: Nem tudo foi simples. Quando eu estava certo de ir para o seminário, ofereceram-me uma proposta irrecusável onde eu trabalhava. No meu primeiro ano de seminário, começaram a chegar cartas na casa de meus pais, cartas das empresas aqui ao redor de Barretos, que tinham necessidade de químicos. Como eu tinha um currículo bom, me chamavam para trabalhar. De repente a minha mãe ligava e falava: Deusmar, tem uma cartinha para você, da empresa tal! Para eu enfrentar tudo isso, e dizer não, foi um desafio, mas o que eu queria mesmo era ser padre. Dificuldades! Eu tive algumas que consegui superar. Em 1980, em meio uma crise econômica, meu pai perdeu o emprego após mais de vinte anos de trabalho no Frigorífico Anglo. Pouco tempo depois, meu irmão, recém-casado, também ficou desempregado. Eu entrei no seminário em 1979, já estava com dois anos de estudo, e de repente dois da família desempregados. Um dia eu vim para casa e estavam os dois fazendo bico. Sensibilizado com a situação da família, voltei para o seminário e lembrei de que o meu ex-patrão, antes de eu ir para o seminário me disse: Deusmar, se um dia você desistir e voltar, você tem serviço aqui, pode me procurar. Eu me lembrei disso. Pensei: meu pai e irmão desempregados e eu aqui, se voltar, poderia trabalhar e ajudar os dois. Um dia resolvi fazer minha mala e no dia seguinte eu voltaria para Barretos. Quando estava arrumando a mala, chegou um colega para conversar comigo, que hoje é padre em Franca, entrou e me viu arrumando a mala. O que está fazendo? Eu estou arrumando minha mala. Para quê? Para ir embora. Como você vai embora? Eu vou embora amanhã cedo. E a sua vocação? Eu não posso ficar aqui vendo meu pai e irmão desempregados. Vou ter que ir lá para ajudar. Amanhã cedo vou conversar com o reitor e vou embora. Sem falar comigo, ele comunicou minha decisão ao então Bispo diocesano, Dom Antônio Mucciolo. Ele viajou imediatamente para Ribeirão Preto, conversou comigo e assumiu pessoalmente a solução do meu problema. Dom Mucciolo conseguiu empregos para meu pai e meu irmão, permitindo assim que eu permanecesse no seminário e concluísse minha formação sacerdotal.
Rosa: Ao longo de quatro décadas o senhor nunca pensou em desistir?
Deusmar: Nunca! Isso nunca me passou pela cabeça. Foi uma vocação que eu assumi. Tive momentos de angústias, mas eu sempre fui uma pessoa de muito relacionamento, dessa forma, eu consegui sempre evitar a solidão. Mas muitas vezes tive dificuldades próprias do trabalho paroquial, mas sempre enfrentei os problemas e graças a Deus consegui resolver. Eu digo que nestes 41 anos de padre, sempre me senti realizado. Sei que sou sério e discreto e costumam dizer que tenho a “cara fechada”, mas respondo sorrindo que “é de nascença”, e rindo sigo meu caminho.
Rosa: Padre Deusmar, o que o seu trabalho representa para a comunidade.
Deusmar: Em primeiro lugar, representa um apoio nas dificuldades. Nossa casa é muito procurada. As pessoas procuram muito no padre um apoio, uma palavra de conforto, procuram algo que ajude a resolver um problema. Nesse sentido, vejo que a grande ajuda que um padre oferece é justamente nisso, ajudar a pessoa a refletir, sobre seus problemas, suas dificuldades, e sair, por exemplo, de uma depressão! A pessoa está numa depressão danada, ela vem, conversa com o padre, aí volta. Como me ajudou aquilo que o senhor me falou, estou me libertando da depressão! Temos pessoas para ajudar o dia inteiro, quando chega à noite, estamos cansados, eu me deito e agradeço a Deus pela ajuda que consegui dar a tantas pessoas e isso me deixa feliz! Então eu acho que a função do padre é essa: pai, pastor, amigo para ajudar no momento que você mais precisa.
Rosa: O senhor já foi reconhecido em Barretos, pela comunidade, pelas autoridades, de ser assim tão autêntico?
Deusmar: Sim. Eu percebo a maneira como as pessoas me tratam, é uma maneira de reconhecer como eu sou, como eu me comporto.
Rosa: O senhor tem alguma história com algum paroquiano que ajudou ou algo assim?
Deusmar: Isso sempre tem. Por exemplo, eu tive uma experiência que não foi aqui, foi em outra paróquia onde estava trabalhando. Era uma senhora de outra denominação religiosa que atacava a igreja católica. Após anos de divergências públicas, sua mãe, ficou doente e queria se confessar. Foram me chamar. Atendi a senhora, mas depois de dois dias, ela morreu. Mais tarde a mesma senhora enfrentou um tratamento contra o câncer. Eu soube da doença e fui visitá-la. Ela me disse que não estava conseguindo uma consulta no Hospital de Amor em Barretos. Liguei para Barretos e no dia seguinte a trouxe para consultar e acompanhei pessoalmente todo o processo. Anos depois, foi justamente ela quem fez o discurso da homenagem durante a entrega do título de cidadão honorário da cidade de Guaraci, num gesto de gratidão que me marcou profundamente. O tempo passou e ela se tornou minha amiga. Quando eu vou a Guaraci, faço-lhe uma visita. Essas experiências da vida são muito interessantes e nos envolvem muito.
Rosa: Padre Deusmar, o que representa essa entrevista para o senhor?
Deusmar: Em primeiro lugar, um reconhecimento. Para mim é um reconhecimento pelo meu trabalho, a senhora querer me entrevistar. Eu fico grato por isso e quando a gente é reconhecido, melhora a autoestima.
Rosa: O senhor tem algum plano para o futuro?
Deusmar: Não gosto de fazer grandes planos. Procuro viver o momento presente. Porque eu costumo dizer sempre, passado é passado, não podemos ficar vivendo o passado no presente e confiando que o futuro pertence a Deus. Procuro viver bem de acordo com a minha vocação, com aquilo que eu acredito, no momento presente. Então não sou de fazer muitos planos, peço apenas a Deus para continuar tendo saúde, o tempo que ele achar que é necessário, para que possa servir a comunidade. Uma frase que sempre digo no aniversário de meu sacerdócio: “Se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria para ser padre.” Porque eu amo ser padre. O que peço para o futuro é que eu continue sendo um padre que faça bem às pessoas.
Rosa: Qual conselho o senhor daria para alguém que está começando cursar o seminário?
Deusmar: Meu conselho é que seja uma pessoa apaixonada por Jesus. O cristão que não é apaixonado por Jesus não é bom cristão. O padre que não se apaixona por Jesus, nunca vai se realizar como padre. O que realmente dá sentido a tudo? Jesus! Jesus não decepciona ninguém. Se você está disposto a ficar próximo de Jesus, então você será um bom padre. Também tem que estar disposto a viver a serviço do próximo. Eu sempre digo, a vida de um padre só é bem vivida quando ela é uma vida a serviço da vida.
Rosa: Me diga uma frase que representa a sua trajetória?
Deusmar: Tem uma frase que é da minha ordenação. “Virá o dia em que todos, ao levantar a vista, verão nesta terra reinar a liberdade”. Para mim, essa é uma frase de esperança, quando o mundo, as pessoas sentirem-se livres. Isso tem que ser a nossa conquista. Então vale a pena todo o meu trabalho, a minha dedicação, meus 41 anos de sacerdócio. Eu acredito que a liberdade dos filhos de Deus deve ser vivida por todos. Repito:” Então virá o dia em que todos, ao levantar a vista, verão nessa terra reinar a liberdade”. Essa é a frase que me motiva cada vez mais a me comprometer com o Reino de Deus.

POR Rosa Carneiro