Surpresa de avô
O Diário - 17 de setembro de 2026
Rosa Carneiro É empresária, acadêmica e integrante da Academia Barretense de Cultura
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Meu avô era caladão, mas dado a surpresas. Eu nem imaginava o que iria ocorrer quando me deitei no chão do alpendre e fiquei olhando as nuvens, numa tarde que prometia ser tediosa. Logo aquele negócio de ficar adivinhando formas de animais nos jogos de brancos e azuis do céu me aborreceu. Paciência de menina dura pouco. Ouvi, então, ao longe, o ruído dos cascos de Xodó. Meu avô Antônio estava vindo da chácara de charrete. Oba! A tarde estava garantida!
Minha mãe não queria deixar eu sair, tinha que estudar. Mas meu avô foi incisivo. Precisava de ajuda para colher jabuticabas. Fui. Menina boba, adorava andar na charrete de meu avô, mas tinha um pouco de vergonha de meus amigos. Nessa época, no interior, pegava bem mesmo era andar de carro, essas coisas, de sítio, todo mundo tinha!
Vô Antônio fez um ruído com a boca que jamais consegui imitar, mas que Xodó entendeu prontamente que era hora de andar. Quando chegamos, corri para a jabuticabeira repleta de pontos pretos e meu avô foi cuidar da égua. Mais comi do que colhi. De soslaio, acompanhava meu avô. Ele parecia meio inquieto, andando de um lugar para o outro, pouco interessado nas jabuticabas. Desconfiei. Alguma coisa ele estava preparando!
Então ele chamou. Fomos até a cocheira. O potro de Xodó mamava. Fiquei maravilhada ao ver aquele lindo cavalinho marrom! Com seu jeito seco, meu avô disse: é seu. Não entendi. Ele repetiu: o potro, é seu! Uma tonteira atingiu a minha cabeça. Sabia que meu avô era pobre. A égua era uma das poucas coisas que tinha. Tentei falar alguma coisa. Ele, completou: é seu, e acabou a conversa.
O potro cresceu, ganhou o nome de Moleque, e me permitiu viver alguns dos meus melhores momentos da infância e adolescência. No seu lombo, numa sela tipo mexicana, me sentia a própria heroína do sertão. Só agora, tantos anos depois da morte de meu avô, compreendo a grandeza de seu gesto, belo e simples. Lamento que os passeios de meus filhos sejam em shopping centers. Mas enquanto existirem crianças e avós, um mundo secreto estará em ação, alheio ao mundo dos pais, completando um dos mais misteriosos e afetuosos círculos da vida: amor de avô e netos.