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Quando a dor pede escuta

O Diário - 20 de setembro de 2026

Quando a dor pede escuta

Mari Armani Psicóloga clínica, especialista em psicanálise. @mariarmani.psi

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Nem todo desejo de morrer representa, necessariamente, um desejo de morte. Muitas vezes, expressa o desejo desesperado de interromper um sofrimento psíquico que se tornou insuportável.

O sofrimento nem sempre aparece como choro. Pode manifestar-se por isolamento, irritabilidade, insônia, perda de prazer, excesso de trabalho, uso abusivo de álcool ou sensação persistente de vazio e falta de sentido. Por isso, frases como “não aguento mais” ou “seria melhor desaparecer” devem ser levadas a sério, jamais tratadas como dramatização.

Na perspectiva psicanalítica, o suicídio não possui uma causa única. Conflitos inconscientes, perdas, frustrações, experiências precoces e sentimentos de abandono, vergonha ou desamparo podem participar da construção desse sofrimento. Desde Freud, compreende-se também que a agressividade dirigida ao outro pode voltar-se contra o próprio sujeito, especialmente em situações de perda ou intensa decepção.

A escuta clínica busca compreender o significado singular dessa dor. Quando experiências antes impossíveis de simbolizar encontram palavras, podem começar a ser elaboradas e adquirir novos destinos.

Buscar ajuda profissional é fundamental quando o sofrimento ocupa espaço excessivo na vida, sobretudo diante de desesperança, culpa intensa ou pensamentos recorrentes sobre a própria morte. Falar sobre suicídio com responsabilidade não incentiva o ato: rompe o silêncio e pode abrir caminho para o cuidado.