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Cacófato

O Diário - 24 de setembro de 2026

Cacófato

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

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Série Vícios de Linguagem

Em algum momento, é comum reler uma frase e perceber, com certo estranhamento, que duas palavras juntas parecem formar outra expressão. Já ocorreu contigo? Então, esse encontro involuntário de sons  pode produzir o cacófato, fenômeno que nasce da combinação entre palavras sucessivas e, às vezes, cria sentidos inesperados. Mais que uma curiosidade da língua, ele merece atenção por revelar como a sonoridade interfere na construção do enunciado e por mostrar que a escolha das palavras ultrapassa o significado isolado de cada uma.

A ocorrência do cacófato decorre da combinação involuntária de segmentos sonoros entre palavras distintas, podendo produzir efeitos de sentido não pretendidos pelo enunciador. É o que se percebe em construções como “vou-me já” e “uma mão”, conforme a articulação e a percepção do ouvinte. Embora não constitua, por si só, um erro gramatical, o fenômeno pode provocar ambiguidade ou comicidade involuntária, sobretudo em situações que exigem maior cuidado com a expressão, ou seja, em situações mais monitoradas de uso, como redação ou entrevistas.

A identificação do cacófato também é relevante para a adequação estilística do texto, pois determinadas combinações sonoras podem comprometer a clareza ou provocar efeitos indesejados na recepção do que é dito. Expressões como “por cada” e “vi ela” podem adquirir sonoridades imprevistas quando articuladas rapidamente, sobretudo na oralidade. Cuidar desses encontros não significa policiar a língua, mas reconhecer que palavras, quando se aproximam, também produzem sons. Aliás, às vezes, esses sons dizem mais do que o enunciador realmente pretendia.

Luciano Borges Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie