A África é plural
O Diário - 3 de junho de 2026
Kleber Aparecido da Silva é Professor Associado 4 do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais e em Linguística na Universidade de Brasília. Foi Visiting Scholar em Stanford University, Penn State University e CUNY Graduate Center, em New York. É Bolsista em Produtividade em Pesquisa pelo CNPq
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Quando se fala em África, ainda persiste a falsa ideia de um continente homogêneo, como se uma única cultura ou língua pudesse representar toda a sua diversidade. No entanto, a África é um vasto mosaico de povos, histórias e identidades. Celebrar o Dia da África, em 25 de maio, é também reconhecer essa pluralidade que faz do continente um dos espaços culturalmente mais ricos do planeta.
Segundo dados do Ethnologue e da UNESCO, a África abriga mais de duas mil línguas vivas, reunindo cerca de um terço de todas as línguas existentes no mundo. Essa diversidade revela não apenas diferentes formas de comunicação, mas também modos únicos de compreender a vida, a memória, a espiritualidade e as relações humanas. Línguas como suaíli, iorubá, hauçá, zulu, amárico e wolof carregam histórias milenares e continuam profundamente presentes no cotidiano de milhões de pessoas. Em muitas sociedades africanas, a oralidade ocupa um papel central. Histórias, provérbios, cantos e rituais preservam saberes ancestrais e fortalecem os vínculos comunitários.
Entretanto, muitas dessas línguas estão ameaçadas de desaparecimento. O colonialismo europeu impôs idiomas como inglês, francês e português como símbolos de poder e prestígio, marginalizando as línguas africanas. Em diversos contextos, crianças chegaram a ser punidas por falar suas línguas maternas nas escolas. Apesar disso, a resistência cultural africana permanece viva. Suas línguas atravessaram oceanos e chegaram às Américas por meio da diáspora africana. No Brasil, palavras como “cafuné”, “quitanda”, “dendê” e “caçula” revelam marcas profundas dessa herança.
Mais do que palavras, as línguas africanas carregam filosofias, formas de viver e maneiras próprias de interpretar o mundo. Valorizar essa diversidade é combater visões estereotipadas e reconhecer que não existe uma única forma legítima de produzir conhecimento e cultura. Num mundo marcado pela globalização e pela homogeneização cultural, preservar as línguas africanas é também preservar a memória, a identidade e a riqueza da experiência humana. Escutar as muitas vozes da África é, acima de tudo, aprender a reconhecer a beleza da pluralidade.



