A cadeia, o fórum e a enfermaria
O Diário - 9 de junho de 2026
KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e titular da cadeira 7 da ABC / @profkarlaarmani
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Poucos barretenses guardam na memória a visão do prédio da antiga cadeia de Barretos, na esquina da avenida 15 com a rua 18. Afinal, ele foi demolido em 1958 para dar lugar ao moderno edifício que abrigaria o novo fórum a partir de 1960. Aquela antiga edificação serviu como cadeia e fórum de Barretos por quase cinquenta anos e ali parte da história da cidade foi vivida, mesmo em clausura. Até como hospital ele serviu.
Era 3 de maio de 1910 quando a cidade engalanava-se pela inauguração da tão esperada cadeia. Barretos, aliás, colecionou histórias curiosas sobre os lugares que serviram de cadeia antes desse edifício: de um simples coqueiro a precários prédios de tábuas. Aquela inauguração, portanto, era um feito histórico. O prédio foi construído pelo governo do estado de São Paulo, esperando, como contrapartida, mobiliário da prefeitura de Barretos. Tratava-se de um prédio moderno, cuja arquitetura assemelhava-se a uma fortaleza em miniatura, um castelinho. Sua frente era voltada ao Bairro da Estação, por certo, e não ao centro com seus casarões e comércios. Em seu interior, no piso inferior, havia seis celas para os detentos e no pavimento superior funcionava o fórum e o cartório judicial. O alojamento dos soldados ficava em pavimento anexo.
Em sua inauguração, enfatizavam-se dois principais quesitos: a segurança e a higiene, principalmente porque essas duas condições sempre foram grandes problemas para Barretos no sistema presidiário naquele início de século. Ocorre que justamente esses dois pontos foram – tão cedo – motivo de preocupação. Além das fugas famosas que lá ocorreram, uma epidemia em 1911 colocou em xeque a higiene do prédio. A varíola, um dos males do início do século, virou epidemia naquele ano em toda a região e pelo menos três presos de Barretos faleceram da doença. Preocupado, o juiz, dr. João Batista M. de Menezes, solicitou ao governo que se criasse um lazareto para isolar e cuidar dos demais detentos doentes. Não havendo outro lugar, o próprio fórum precisou transformar seu salão nobre, no piso superior, em enfermaria improvisada. Não havia hospital, nem recursos, nem saída. E foi assim que o fórum, naquele edifício tão moderno, transformou-se em enfermaria. A modernidade é sempre relativa, caros leitores.



