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A Cor do Destino

O Diário - 15 de julho de 2026

A Cor do Destino

Kleber Aparecido da Silva é Professor Associado 4 do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais e em Linguística na Universidade de Brasília. Foi Visiting Scholar em Stanford University, Penn State University e CUNY Graduate Center, em New York. É Bolsista em Produtividade em Pesquisa pelo CNPq

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O racismo brasileiro nunca se limitou à cor da pele. Sempre procurou definir quem merece reconhecimento, pertencimento e cidadania plena. É por isso que, ainda hoje, a pergunta “quem é suficientemente negro?” continua reaparecendo, deslocando o debate das estruturas de desigualdade para os corpos que delas são vítimas. Ao denunciar esse mecanismo há mais de vinte anos, Sueli Carneiro revelou que a dúvida sobre a identidade negra nunca foi inocente. Ela sempre serviu para enfraquecer pertencimentos, fragmentar solidariedades e preservar privilégios.

Hoje, essa lógica assume novas formas. O preconceito já não circula apenas nas relações pessoais, mas também nas tecnologias que classificam rostos, organizam oportunidades e reproduzem desigualdades aprendidas no passado. O racismo muda de linguagem, mas não de propósito. Enquanto insistirmos em medir a negritude das pessoas, deixaremos de enfrentar aquilo que realmente importa: as estruturas que continuam distribuindo direitos, oportunidades e reconhecimento de maneira desigual.

Uma democracia não se mede pela capacidade de tolerar diferenças, mas pela disposição de impedir que elas se transformem em desigualdades. O Brasil somente será plenamente democrático quando ninguém precisar justificar sua identidade para ser reconhecido como cidadão. Até lá, permaneceremos convivendo com uma realidade em que a cor deixa de ser apenas um argumento e continua determinando, silenciosamente, o destino de milhões de brasileiros.