A demolição do tempo
O Diário - 17 de julho de 2026
Cláudia Martins de Lima. Cirurgiã-Dentista, Especialista em Ortodontia, Mestranda em Odontopediatria e Ortodontia, Membro do Conselho Curador da FEB, Dentista do Bem
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A preferencial da avenida era minha. Logo a frente teria uma valeta na rua, eu diminui a velocidade e olhei a direita displicente quando vi o nada. Caramba! Onde estava o prédio que eu nem me lembro quando foi edificado, mas que estava ali desde que me conheço por gente? É verdade que parte dele já havia sido derrubado e um prédio com apartamentos com valores estratosféricos havia sido construído no lugar. Mas e o restante que estava ali ontem? Eu não o olhei pela última vez, não o olhei com receio de que fosse derrubado. Não pensei em entrar nele mais uma vez. Posso ter visto, mas não reparei como me diria Saramago. E o prédio já saudoso do colégio que estudei veio abaixo hoje. O vazio que ele deixou foi tão imenso que mesmo vendo nada, eu o vi. Atordoada, parei no bendito semáforo que me permitiu assimilar o que eu acabava de presenciar. Em segundos, lembrei dos corredores daquela ala que ainda estava lá ontem. Vi a cantina, subi as escadas. Lembrei dos simulados que eram feitos na primeira sala a direita, logo na entrada. Lembrei das cores dos muros que nunca serão esquecidas: verde e branco. O dono da escola era um visionário. Alguém que transformou uma pequena escola numa potência. Até emissora de tv ele adquiriu com os rendimentos da escola. Se o aluno era bom e queria estudar lá, ele dava bolsas na mesma medida que pessoas abastadas lhe pagavam para ter acesso aos melhores professores da região. Dali saíram grandes profissionais da medicina, do jornalismo, do direito, da odontologia, da engenharia. Aquilo era uma máquina de preparar alunos para os melhores vestibulares do Brasil. O sinal abriu, eu segui junto com o fluxo, pensei em me distrair com a rota que eu seguiria. Cinco segundos depois, o novo prédio caixote que há de ser construído com os tais valores estratosféricos que geralmente os prédios modernos têm, surgiu na minha mente. Por óbvio, terá vidros blindex por todos os lados. Será que alguém fotografou o prédio que não existe mais? A fotografia é dos inventos mais fundamentais que a modernidade tem. Tudo passou a ser tão vorazmente rápido, que só as fotos hão de nos salvar.