A fé e o dom da escuta em um mundo cheio de barulhos
Diocese de Barretos - 28 de janeiro de 2026
Por Dom Milton Kenan Júnio, Bispo de Barretos
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Vivemos em um tempo marcado pelo excesso de sons. Não apenas os ruídos das cidades, das máquinas e das telas, mas também o barulho interior: pensamentos acelerados, preocupações constantes, opiniões que se sobrepõem e urgências que nunca cessam. Nesse cenário, a fé cristã nos recorda um dom cada vez mais esquecido, porém essencial: a escuta divina. Crer não é apenas falar com Deus, pedir ou agradecer; crer é, antes de tudo, aprender a escutar. Na experiência bíblica, Deus raramente se manifesta no estrondo. Ele fala no sussurro, na brisa leve, na Palavra que toca o coração disposto. A fé nasce quando o ser humano se cala por dentro para permitir que Deus fale. Sem escuta, a fé se torna discurso vazio; com escuta, ela se transforma em relação viva. Por isso, a escuta não é um acessório da vida espiritual, mas seu alicerce. O mundo atual, porém, educa para o oposto. Somos treinados para responder rápido, opinar sobre tudo e preencher cada silêncio. O silêncio chega a causar desconforto. No entanto, é exatamente nele que Deus age com profundidade. O silêncio não é ausência de Deus; muitas vezes, é o espaço que Ele escolhe para se revelar. Escutar Deus exige coragem para desacelerar, para não reagir imediatamente, para aceitar que nem tudo precisa de uma resposta instantânea. A fé amadurece quando aprendemos a discernir a voz de Deus no meio de tantas outras vozes. Isso pede interioridade. Não se trata de fugir do mundo, mas de habitar o mundo sem perder o centro. A escuta divina nos ajuda a distinguir o que é essencial do que é apenas ruído. Quem escuta Deus não vive menos os desafios da vida, mas os vive com mais sentido. No cotidiano, a escuta divina se manifesta de forma concreta: na Palavra proclamada, na oração silenciosa, na consciência que interpela, no clamor do outro que pede atenção, e na vivencia sacramental. Deus fala também através das situações simples, das perguntas inesperadas e até das crises. Deus não grita para competir com o barulho; Ele espera que o coração se disponha a ouvi-Lo. Por isso, a fé pede disciplina espiritual: criar espaços de silêncio, reservar tempos de oração, cultivar uma escuta paciente e humilde. Escutar Deus transforma a maneira como falamos e agimos. Quem escuta mais, julga menos. Quem escuta Deus, aprende a escutar o próximo. Há uma ligação profunda entre escuta divina e compromisso humano. A fé que escuta não se fecha em si mesma; ela se abre à missão, à compaixão e à responsabilidade. A escuta de Deus gera palavras que constroem e atitudes que curam. Em um mundo barulhento, a escuta torna-se um ato profético. É um testemunho silencioso de que a vida não se resume à pressa nem ao excesso de informação. Recuperar o dom da escuta divina é recuperar a profundidade da fé. Somente quem aprende a silenciar diante de Deus consegue permanecer firme diante do caos. Assim, a fé não nos tira do mundo, mas nos devolve a ele com um coração mais atento, mais livre e mais cheio de esperança.




